Paulo Cafôfo alerta para a má distribuição da riqueza criada na Região
"Este debate foi sobre o custo de vida. Mas, para nós, o custo de vida não se resume a estatísticas. O custo de vida mede-se quando um casal jovem percebe que trabalhar todos os dias já não chega para comprar ou arrendar uma casa; quando uma família vai ao supermercado e leva cada vez menos produtos pelo mesmo dinheiro; quando um pensionista tem de escolher entre comprar medicamentos ou ajudar um neto a encher o depósito do carro". Foi assim que Paulo Cafôfo iniciou a intervenção de encerramento do debate sobre o custo de vida.
O crescimento económico, diz o líder parlamentar socialista, "só tem verdadeiro valor quando chega à vida das pessoas".
"A Madeira cresce, tem turismo forte e até tem algumas empresas que dão cartas a nível nacional. O problema é que esse crescimento continua a não chegar, com a intensidade necessária, ao rendimento das famílias", sublinha.
O governo regional, acusa, procura contrariar, "enunciando apenas indicadores macro-económicos tradicionais, como os do crescimento económico e do PIB".
"Muitos madeirenses sentem que a economia não está a funcionar para eles, porque vivem uma contradição muito concreta: os salários reais estão sob pressão, enquanto a riqueza no topo cresce a um ritmo elevado. Esta não é apenas uma percepção negativa dos cidadãos, nem resulta simplesmente de pessimismo ou de má interpretação da realidade económica".
Os últimos dados oficiais, afirma Paulo Cadfôfo, não deixam margem para dúvidas. Em Junho de 2026, a taxa de inflação, na variação homóloga, os preços aumentaram 5,0% na Madeira, contra 3,2% no país.
"Há 33 meses consecutivos, de outubro de 2023 a junho de 2026, que a taxa média de inflação da Madeira é a mais alta do país. Repito: 33 meses consecutivos. Não estamos perante uma oscilação pontual. Estamos perante uma pressão prolongada e persistente sobre o orçamento das famílias".
Durante quase três anos, os madeirenses "têm pago uma factura de inflação superior à do conjunto do país. Pagam mais na alimentação, na habitação, na saúde, nos transportes e nos serviços essenciais".
Entre Janeiro e mMaio de 2026, a receita fiscal do Governo Regional atingiu mais 23,2 milhões do que no mesmo período de 2025, um aumento de 5,5%. Os impostos directos subiram mais 2,3%. Os impostos indiretos aumentaram mais 6,6%. A receita de IVA aumentou 16,8 milhões, um crescimento de 6,7%. A receita de ISP aumentou 39,3%. Só o IVA e o ISP renderam mais 22,8 milhões de euros do que um ano antes. Nos impostos diretos, a receita de IRC aumentou 40,5%, mais 5,1 milhões.
"Não podemos aceitar que a inflação seja uma boa notícia para os cofres públicos e um sufoco para os madeirenses".
"Um Governo responsável não se limita a arrecadar mais porque tudo ficou mais caro. Usa a margem fiscal para aliviar quem trabalha, quem produz e quem chega ao fim do mês cada vez mais apertado", afirma.
Combater, afirma, o custo de vida passa por aumentar rendimentos. "Os madeirenses observam o crescimento económico, não como sinal de prosperidade partilhada, mas como prova de que estão a ficar para trás".
A economia pode estar a gerar riqueza, diz, mas essa riqueza não se traduz "automaticamente em melhores salários, habitação acessível ou capacidade de poupança. A distância entre os indicadores financeiros e a vida concreta das famílias alimenta a frustração da maioria da população".
Paulo Cafôfo alerta para outro facto que representa "um perigo, quando numa comunidade como a nossa, insular, grandes fortunas poderem distorcer a economia e a democracia. A riqueza excessiva de uma elite pode permitir aniquilar concorrentes, formar monopólios, influenciar decisões políticas e ganhar poder desproporcionado sobre o governo regional".
A economia está a criar riqueza, "mas a distribuição dessa riqueza é cada vez mais concentrada. A distância entre prosperidade financeira no topo e insegurança material na base ajuda a explicar a a angústia de muitos madeirenses".
Para o líder parlamentar do PS "é necessária uma mudança e outro caminho. O PS assume plenamente o seu papel: fiscalizar, escrutinar, exigir resultados e, sobretudo, construir uma alternativa política credível para a Madeira".