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Em La Guaira joga-se 'mini-mundial' da solidariedade

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Foto EPA

No parque de estacionamento duma farmácia, entre tendas que se amontoam junto aos escombros de edifícios destruídos pelos terramotos da semana passada na Venezuela, um voluntário improvisou uma final de campeonato para distrair as crianças da devastação.

Juntou pedaços de cimento arrancados das paredes de um prédio que ruiu durante os sismos, uma cadeira cuspida de uma casa pela força dos terramotos e está improvisado um campo de futebol, sem relvado, num Pharmatodo (uma cadeia de farmácias na Venezuela), que agora é a morada de quem perdeu o teto.

O árbitro, organizador do evento e guarda-redes, é Alejandro Martínez, de 30 anos.

"Senhoras e senhores, sejam bem-vindos ao incrível duelo entre as seleções do Brasil e da Argentina", disse Alejandro, enquanto o sol se punha e continuavam as missões de resgate em Catia La Mar, a cidade em La Guaira mais fustigada pelos terramotos de 24 de junho.

Os jogadores são crianças, os adeptos os pais e algumas pessoas que deambulavam pelas ruas e pararam para ver o que motivava a algazarra.

O encontro começa com sete jogadores, há uma desvantagem clara de um lado, mas o objetivo não é ganhar: distrair as crianças já é vencer o jogo de hoje.

"Pelo menos assim podem distrair-se daquilo que as rodeia, neste bocadinho esquecem o medo daquele dia e a tristeza de dormir na rua", comentou à Lusa Enrique, amigo de Alejandro.

Alejandro e Enrique começaram o dia cedo, carregando caixa atrás de caixa na carrinha de Enrique: "São 'empanadas' e sumos de fruta, gastámos 600 dólares, vamos conseguir alimentar 40 pessoas", disseram à Lusa.

Alejandro Martínez não é voluntário, nem sequer é de Caracas. É produtor de conteúdos turísticos para as redes sociais, tinha saído de Mérida, na Cordilheira dos Andes, noroeste da Venezuela, e aterrado em Caracas três dias antes dos dois sismos que sacudiram o país.

Logo após os sismos, não percebeu a dimensão da catástrofe e só pensou em regressar a casa, mas as redes sociais que utiliza diariamente encheram-se de mensagens: "Do nada tinha mais de 16.000 pessoas nas transmissões que fazia a perguntar pelos familiares e a perguntar como é que podiam ajudar", contou.

Sem saber o que responder, Alejandro Martínez começou a perguntar nas ruas o que era necessário: "Já não podia, moralmente, continuar a produzir os mesmos conteúdos. Utilizei todo o dinheiro que ganhei nos últimos meses com as redes sociais para comprar comida e distribuí-a pelos socorristas e pessoas que já não têm uma casa para onde regressar", relatou.

Na terça-feira tocou-lhes descer a serra que desagua nesta cidade no estado costeiro de La Guaira, a norte de Caracas, que é o epicentro da destruição.

À Lusa, Alejandro Martínez descreveu que chegar à cidade costeira o impressionou e entristeceu: "É muito pior do que aquilo que estão a dizer em Caracas, não o podia imaginar."

Em Cátia La Mar começou a distribuir comida, procurando os locais mais afastados dos centros de acolhimento de deslocados, as ruas, ou que resta delas, onde entre edifícios destruídos se vislumbram tendas, sofás e estrados de camas onde os sobreviventes se instalaram.

Voltando à 'final' futebolística da tarde, o entusiamo e as gargalhadas rompem com o som de máquinas a recolher entulho. Pouco a pouco aproximam-se mais crianças, o campo já expandiu um pouco mais. O resultado continua sem interessar.

Durante a manhã, Alejandro foi perguntando aos voluntários, vizinhos de uma vida inteira nesta cidade à beira mar, o que lhes fazia falta. A resposta é unânime: capacetes e óculos de proteção.

Na carrinha apenas estavam as caixas com a comida que trouxe e a meio da manhã já só lhe restavam duas. Enrique distribuiu-as e os dois meteram-se no carro.

Regressaram à tarde trazendo duas caixas com cerca de onze capacetes, igual número de coletes, e seis pares de óculos.

"Foi o que conseguimos nestas horas, já estávamos a zeros", revelou.

Ao regressar a Caracas e novamente com acesso à internet, Alejandro fez um apelo às pessoas que o seguem nas redes sociais, que responderam enviando donativos e pedindo-lhe que compre o que é mais necessário.

Para os que "não têm recursos" para ajudar com dinheiro, Alejandro advogou que "podem ajudar com uma palavra amiga".

Na carrinha, que minutos depois de chegarem ficou praticamente vazia, havia mais duas caixas com bonecas e bolas de futebol.

"Quando chegámos durante a manhã estacionámos na Pharmatodo e só no parque de estacionamento estavam três famílias em tendas, com miúdos pequenos", acrescentou.

Por isso, os dois amigos decidiram "aproveitar o que os subscritores enviaram" e compraram bolas de futebol, que foram logo parar aos pés das crianças.

Neste final de tarde, seis dias depois da tragédia, pelo menos nesta avenida são mais os sorrisos do que as lágrimas.