Machico Quinhentista
Machico foi capital da ilha por alguns anos, agora por 3 dias será a capital da cultura
Machico regressa amanhã ao tempo onde o sonho imperava, onde tudo era ainda possível, onde se iniciava o povoamento da ilha alimentando esperança, ilusões e ambições.
O Mercado Quinhentista recria ofícios e pessoas da época. Nesta representação deixamo-nos imaginar o que os nossos descobridores encontraram na ilha, como planearam o seu povoamento e que passos deram para desbravar floresta e conquistar terreno. Hoje vivemos das conquistas desse tempo, mas não podemos deixar de equacionar se tudo foi mesmo bem feito.
Se tivéssemos hoje a ilha ainda por povoar, teríamos as mesmas prioridades?
Machico foi capital da ilha por alguns anos, agora por 3 dias será a capital da cultura, nesta festa que tem tanto de histórico quanto de inovação. Um conceito que une gentes de todas as idades, em torno de um projeto que faz os machiquenses sentirem orgulho no seu passado, nas suas tradições e no seu território.
Imaginamos o povoamento a nascer em Machico e se estender por toda a ilha, doando-se terras e alimentando-se expectativas de vidas melhores. Ao longo de séculos lutou-se contra todas as limitações do nosso território, desde o seu relevo, ao isolamento, às intempéries. A primeira necessidade foi a subsistência só depois a geração de riqueza.
Hoje, perdeu-se a centralidade nas famílias e a sua qualidade de vida. A prioridade é gerar números positivos, indicadores de crescimento económico e dados estatísticos que sustentem uma narrativa de boa governação. Factos comprovados em relatórios e gráficos de comparação, onde há sempre uma ou outra região pior que a nossa, onde assumindo alguns eixos de relevância até somos referências nacionais, europeias e mundiais.
Vivemos num mundo de comunicação, onde se sai melhor, quem melhor transmite a imagem positiva que pretende. Cada vez menos se valida a informação, desde as fontes ou a até à relevância do que é partilhado, o importante é o impacto que cada notícia tem, e a imagem que deixa na mente do povo.
É destes retratos que se vão fazendo governações, quanto mais colorido melhor a governação. Perdeu-se o valor pela honestidade e pela verdade. Já não é quem melhor trabalha que é mais valorizado, é sim quem melhor vende o seu trabalho.
É evidente a minha desilusão do modelo político atual, o que é um contrassenso, uma vez que integro esse modelo. Resta-me apenas concentrar-me em mais do pensar diferente, fazer diferente.
O Mercado Quinhentista permite recordar que uma comunidade não se constrói a partir dos números que se apresentam, mas das pessoas que se decide colocar em primeiro lugar.