Vizinhos e socorristas cataris lutam contra o tempo e réplicas para resgatar moradores
Uma equipa de resgate catari e os vizinhos de toda a vida trabalham em contrarrelógio para resgatar as pessoas que estão presas nos escomboros de um prédio residencial em San Bernardino, em Caracas.
Nem a réplica registada às 07:00 locais (12:00 em Lisboa) fez parar a equipa de resgate que veio do Qatar e os voluntários, na sua maioria vizinhos, na Avenida Los Próceres, em San Bernardino, na área de Caracas mais próxima da costa e das que foi mais fustigada pelos sismos de 24 de julho.
O trabalho é minucioso, ainda que seja feito com pressa. Não há tempo a perder, mas os escombros têm de ser retirados de maneira quase cirúrgica para evitar que a estrutura já debilitada se desmorone por completo.
Deste prédio já só restam partes das paredes e à volta foi criada uma autêntica 'linha de montagem'. Os baldes com o entulho vão passando de mão em mão e regressam vazios.
Parece um trabalho lento, mas avança-se com a intenção de ouvir alguém entre os destroços.
As autoridades não revelaram o número, mas os voluntários naquele local já lamentaram a morte de alguns moradores.
"Não chegámos a tempo", lamenta um voluntário, com uma máscara de proteção individual, capacete laranja e um colete, também laranja, rasgado.
"Café! Café!", diz um voluntário, que carrega uma cafeteira na mão, enquanto vai distribuindo café em pequenos copos de plástico.
"Temos de nos concentrar nas três pessoas que já retirámos com vida, isso é que importa", disse outro voluntário à Lusa, enquanto descansa uns minutos e limpa com a mão cheia de pó o suor que lhe escorre pelo rosto.
Às 09:30 locais estão quase 28 graus e aqui as operações de resgate não foram interrompidas.
Quem tem forças, continua. Quem precisa de um momento, para descansar ou recuperar da carga emocional, escolhe o passeio como local de repouso.
Punho no ar, motores da maquinaria desligados, todos se calam. Só as três araras que sobrevoam o local se fazem ouvir.
A equipa de resgate catari e os voluntários permanecem em silêncio, estáticos, a aguardar um som. Parece que ouviram uma voz.
Segundos depois o frenesim regressa. Há esperança de que uma pessoa possa estar viva debaixo dos escombros deste edifício.
As indicações mudam e todos rapidamente se adaptam, com cuidados redobrados.
A corrida é contra o tempo e praticamente todos ganham forças novas com a esperança de ver alguém sair com vida de entre os escombros.
Os sismos registados na Venezuela em 24 de junho causaram pelo menos 1.450 mortos e 3.150 feridos, segundo o mais recente balanço oficial.
Entre os mortos, há pelo menos 53 portugueses e lusodescendentes, e outros 89 estão desaparecidos ou incontactáveis.
Segundo a ONU, mais de 50 mil pessoas estão desaparecidas.
Vários países, incluindo Portugal e outros estados da União Europeia, enviaram equipas de busca e salvamento para a Venezuela.
A base de operações da missão portuguesa de resposta aos sismos está sediada em Catia la Mar, em La Guaira, uma zona de grande concentração de portugueses e lusodescendentes.
Os sismos de magnitude 7,2 e 7,5 ocorreram a 200 quilómetros de Caracas, com menos de um minuto de intervalo e foram seguidos por mais de 20 réplicas, de acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos.
Dezenas de edifícios ruíram ou ficaram gravemente danificados na capital Caracas e na região de La Guaira, uma das mais afetadas.