Terá o Porto Santo aquela que foi das primeiras dessalinizadoras do Mundo?
A dessalinização da água do mar é hoje apontada como uma das respostas para enfrentar a escassez de água em regiões sujeitas a secas prolongadas. Em Portugal continental, o Algarve prepara-se para avançar com a construção da sua primeira central deste tipo e, sempre que o tema regressa à actualidade, o Porto Santo surge como exemplo pioneiro.
Nas redes sociais, em documentos institucionais e até em textos de divulgação turística, é frequente encontrar a afirmação de que a Central Dessalinizadora do Porto Santo foi "uma das três primeiras centrais dessalinizadoras do Mundo", normalmente acompanhada da referência à sua entrada em funcionamento em 1979.
Mas corresponderá esta afirmação à realidade histórica ou resulta da simplificação de uma informação técnica mais complexa?
Para verificar a veracidade da afirmação recorremos a documentação técnica da ARM – Águas e Resíduos da Madeira, à literatura internacional sobre a história da dessalinização e da tecnologia da osmose inversa, bem como a documentos oficiais produzidos ao longo das últimas décadas sobre a central do Porto Santo.
A primeira constatação é que a dessalinização da água do mar é muito anterior à unidade porto-santense. Ainda no século XIX existiam instalações de destilação destinadas ao abastecimento de navios, nomeadamente em Aden, actual Iémen. Durante o século XX foram construídas grandes centrais de dessalinização em Aruba, no Kuwait, nos Estados Unidos da América e noutros países do Médio Oriente, recorrendo sobretudo a processos térmicos, baseados na evaporação e condensação da água do mar.
Deste modo, não é correcto afirmar que a central do Porto Santo foi uma das três primeiras centrais dessalinizadoras do Mundo.
A nossa pesquisa permitiu, contudo, identificar a origem provável da confusão.
A central do Porto Santo distinguiu-se por utilizar uma tecnologia diferente da maioria das unidades então existentes: a osmose inversa. Em vez de evaporar a água do mar, este processo força a passagem da água através de membranas sob elevada pressão, retendo os sais e reduzindo significativamente o consumo energético.
Foi precisamente nesta tecnologia que o Porto Santo assumiu carácter pioneiro.
A documentação actualmente produzida pela ARM refere que a central foi uma das primeiras unidades industriais de dessalinização de água do mar por osmose inversa do Mundo e a primeira instalada em território europeu. A mesma documentação acrescenta que, quando entrou em funcionamento, em 1980, existiam apenas cinco unidades industriais comparáveis em todo o Mundo.
Esta formulação difere significativamente daquela que circula nas redes sociais.
Durante a investigação encontrámos igualmente documentos oficiais que referem que a central porto-santense foi "uma das três primeiras centrais mundiais que adoptaram a tecnologia da osmose inversa". Trata-se de uma formulação bastante mais precisa do que aquela que hoje é repetida. Ainda assim, a literatura técnica internacional identifica instalações de osmose inversa anteriores ou contemporâneas, nomeadamente nas Bermudas e na Arábia Saudita, não permitindo confirmar, com segurança, que o Porto Santo tenha integrado exactamente o grupo das três primeiras.
Ao longo dos anos, a expressão "uma das três primeiras centrais que adoptaram a tecnologia da osmose inversa" acabou, em muitos casos, simplificada para "uma das três primeiras centrais dessalinizadoras do Mundo", eliminando precisamente o elemento técnico que lhe dava significado.
Pelo exposto, a afirmação não pode ser considerada rigorosa, sendo avaliada como imprecisa. A central do Porto Santo não foi uma das três primeiras centrais dessalinizadoras do Mundo. Foi, isso sim, uma das primeiras unidades industriais de dessalinização de água do mar por osmose inversa, pioneira na Europa e integrante do primeiro grupo mundial de instalações desta tecnologia. É essa distinção que a investigação histórica e técnica actualmente permite sustentar.