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Cisma com ultraconservadores será teste ao Papa e a grupos conservadores

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O especialista em religião Paulo Mendes Pinto considerou que a previsível excomunhão e cisma com o movimento ultraconservador católico Fraternidade São Pio X vai ser um teste ao Papa e à atuação dos restantes movimentos conservadores críticos do Vaticano.

O grupo da Igreja católica vai nomear quatro bispos sem autorização do Papa e Paulo Mendes Pinto afirmou que a excomunhão desses religiosos irá mostrar a força de outros movimentos conservadores, com mais seguidores e com mais pesos, tradicionalmente descontentes com alguns sinais de abertura ao progressismo pelo Papa Francisco e pelo Concílio Vaticano II.

"Desde a década de 80 que este grupo na prática tem funcionado como o cavalo de Troia dos grupos conservadores" e "tem tido as posições mais radicais e, portanto, todos os outros grupos mais conservadores, mesmo que não se identifiquem totalmente com ele, na prática vão ganhando a legitimidade do seu espaço e da sua práxis à custa do que este grupo vai tentando fazer", explicou o docente da Universidade Lusófona.

Por isso, se houver a ordenação de bispos a 01 de julho e "se houver depois um documento papal a dizer que estão excomungados e, portanto, são cismáticos", será "interessante ver outros grupos conservadores, neocatecumenais, carismáticos ou até o Opus Dei, e ver qual é que vai ser a posição deles: se vão defender a posição do Papa ou se vão pressionar o Papa para não fazer nada".

Será a reação de outros grupos conservadores o "separador de água" que irá definir o impacto deste cisma na Igreja.

Esses "outros grupos, em termos demográficos e sociológicos e até económicos, são significativos" e será importante ver as suas decisões: "Vão continuar próximos deste grupo e seguir o caminho do cisma ou pelo menos irão criticar profundamente e abertamente o Papa, ou irão ficar quietos e não vão fazer nada?"

Para o investigador, "este projeto de cisma tem vindo a ser desenhado desde o final do Concílio Vaticano II", porque a fraternidade tem origem num "grupo de seguidores do padre Lefèbvre que, desde os anos 80, ciclicamente entrou em colisão com o Vaticano".

O mais recente concílio ecuménico, nos anos 1960, mudou a prática religiosa, abriu o trabalho religioso aos leigos e acabou com as missas em latim, a par de outras medidas radicais, procurando adaptar a instituição ao espírito contemporâneo.

Nos últimos anos, Bento XIV "era um Papa que, em alguns aspetos, via com olhos positivos algumas práticas conservadoras como a missa em latim", algo que o Papa Francisco "não via desse modo", embora sem nunca ser taxativo. E, com isso, "este grupo foi passando pelos pingos da chuva ", resumiu.

Agora, "passou um ano de Pontificado" de Leão XIV e, "eventualmente ter-se-á achado que este Papa seria de alguma maneira pressionável", sabendo-se que tem "havido bastantes pressões do cardeal Burke, um norte-americano bastante conservador, e seria de esperar que, apesar de tudo, surgisse alguma abertura", explicou Paulo Mendes Pinto.

Por isso, o investigador vê a nomeação dos bispos como "um puxar a corda para tentar colocar o Papa entre a espada e a parede, acreditando que o Vaticano irá de alguma forma encontrar uma solução que contemporize".

Mas, "até agora o que estamos a ver, de facto, é que este Papa é muito mais taxativo".

O cisma será automático após a excomunhão dos bispos nomeados: "o cisma em si é uma realidade que não existe, não há uma categoria dentro de uma organização para quem é cismático ou não".

Os cismas são fenómenos comuns do passado, mas "nos tempos recentes não temos essa prática", pelo que será "interessante ver os comportamentos", já que, para os membros da fraternidade, é o próprio Vaticano que está fora das normas ortodoxas da fé: "eles acham que são os certos e quem é cismático no fundo é o Vaticano, são os outros que estão errados".

Sobre o impacto direto do cisma, Paulo Mendes Pinto minimizou: "Este grupo não é significativo" e muitos dos féis valorizam mais a ligação a Roma do que os rituais.

"O Vaticano, e este Papa já deu provas disso, tentará sempre criar caminhos em que todos fiquem debaixo do mesmo teto por mais diversos e diferentes que sejam" as práticas, porque "essa é a natureza, o ADN da Igreja Católica".

Contudo, a criação de uma hierarquia religiosa autónoma do Vaticano é um caminho sem retorno e Leão XIV tem demonstrado "uma grande solidez teológica da qual aparentemente não abdica facilmente" em função de acordos políticos.

Por isso, "se este Papa entender" que tem a teologia do seu lado, "será difícil entrar no campo da negociação" e "teremos aqui uma tensão muito interessante de ver", acrescentou.

Para o dia 01 de julho, em Econe, na Suíça, está prevista uma reunião magna da Fraternidade, que tem prevista a elevação a bispos de quatro sacerdotes, uma nomeação que, segundo a doutrina católica, é prerrogativa pessoal do Papa.

Segundo um comunicado da organização, vão ascender a bispos os padres franceses Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier, o suíço Pascal Schreiber e o americano Michael Goldade, tendo sido enviado ao Papa uma apresentação dos sacerdotes e "algumas explicações necessárias para a compreensão adequada deste processo", ao que Leão XIV não deu resposta.

Segundo a comunidade, estas consagrações "não decorrem de qualquer desejo de reivindicar poder de jurisdição, ou de estabelecer uma autoridade paralela na Igreja" e o processo "não constitui de forma alguma uma negação, recusa ou desafio ao poder supremo, pleno e imediato do Vigário de Cristo sobre a Igreja universal".

Contudo, sem a confirmação da consagração, essa elevação a bispos é irregular à luz da lei canónica e os sacerdotes incorrem em excomunhão, com o movimento a tornar-se automaticamente cismático, não reconhecido pelo Vaticano.

Em Portugal, a fraternidade conta com quatro capelas de celebração e tem-se mostrado muito fechada aos contactos com o exterior.

Apesar de várias insistências da agência Lusa, a organização em Portugal tem declinado comentar a situação.