Hugo Soares chama Albuquerque de “rezingão”
A intervenção de Hugo Soares no 43.º Congresso Nacional do PSD, que decorre em Anadia, ficou marcada por uma curiosa mistura entre mensagem política e descontração partidária. O líder parlamentar social-democrata aproveitou o palco para defender a estratégia de diálogo da direcção nacional, reforçar a ideia de estabilidade governativa e mobilizar as estruturas do partido. Mas foi um comentário dirigido a Miguel Albuquerque que acabou por arrancar algumas das reacções mais espontâneas da assistência.
"O nosso presidente rezingão", atirou Hugo Soares, apontando para o líder do PSD-Madeira e presidente da Mesa do Congresso, precisamente no momento em que este regressava ao seu lugar após uma breve ausência.
A sala reagiu com poucos sorrisos e naturalidade. A frase foi recebida como um aparte entre dirigentes que se conhecem bem, mas dificilmente passou despercebida a quem acompanha a vida interna do PSD-M. Porque, mais do que uma simples piada, o comentário acabou por tocar numa das características políticas que mais identificam Miguel Albuquerque dentro da estrutura nacional do partido.
Ao longo dos trabalhos do congresso, Albuquerque foi várias vezes visto a controlar os tempos das intervenções, atento ao relógio e ao cumprimento rigoroso das regras definidas para os oradores. Mas o "rezingão" de Hugo Soares não pareceu referir-se apenas a essa função circunstancial de presidente da Mesa.
Minutos antes do comentário, Albuquerque tinha sido visto em conversa reservada com Luís Montenegro. As imagens captadas no plenário mostram ambos em diálogo concentrado, trocando impressões durante vários minutos.
O conteúdo da conversa ficou naturalmente entre os dois dirigentes. Mas, num congresso onde os principais dossiês da Madeira estiveram praticamente ausentes dos discursos nacionais, qualquer conversa entre Albuquerque e Montenegro adquire inevitavelmente significado político.
No plano político, Hugo Soares centrou grande parte da sua intervenção na defesa da estratégia seguida pela direcção nacional. O presidente do Grupo Parlamentar insistiu que o PSD continuará a dialogar com todas as forças políticas representadas na Assembleia da República, mesmo quando esse diálogo gera desconforto em sectores da militância.
Numa das passagens mais aplaudidas, afirmou que, se o Partido Socialista e o Chega desistiram do país, o PSD não desistirá de os chamar à razão. A frase procurou posicionar os sociais-democratas como principal garante da estabilidade institucional e da governabilidade, numa altura em que o Parlamento continua marcado por uma forte fragmentação partidária.
Hugo Soares defendeu ainda que os portugueses atribuíram responsabilidades claras nas últimas eleições legislativas. Na sua interpretação, ao PSD foi confiada a missão de governar e aos restantes partidos a responsabilidade de dialogar e contribuir para soluções no Parlamento. Trata-se de uma leitura que procura reforçar a legitimidade política do Governo e, simultaneamente, pressionar a oposição a assumir uma postura mais colaborativa.
Antes disso, o líder parlamentar tinha dedicado parte da intervenção aos militantes, autarcas e estruturas locais do partido. Recordou o trabalho de proximidade realizado nas campanhas eleitorais e atribuiu à presença no terreno uma parte significativa dos resultados alcançados pelo PSD. A referência ao porta-a-porta e ao contacto directo com as populações procurou sublinhar uma das mensagens centrais deste congresso: a ideia de que o partido pretende continuar a combinar exercício do poder com implantação territorial.
E, olhando para os principais dossiês que a Madeira continua a reclamar junto de Lisboa, talvez seja precisamente essa insistência de Albuquerque que explique porque o "rezingão" de Hugo Soares foi recebido mais como um elogio do que como uma crítica.