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Crónicas

Uma geração traduz-se?

Outro dia ouvi uma conversa entre dois adolescentes. Ou pelo menos penso que era uma conversa. Confesso que, durante alguns minutos, achei que estava a assistir a uma reunião secreta de uma sociedade cuja palavra-passe me tinha escapado.

“Ela é a minha ficante premium plus.”
“O gajo tem bué rizz.”
“Ele é VB.”
“Mas depois fez ghosting.”
“Red flag total.”
“E eu fiquei lowkey chateado.”

A determinada altura, olhei em volta para confirmar se continuava em Portugal. Continuava. Apenas tinha entrado, sem autorização, no território linguístico de uma nova geração. Todas as gerações criam os seus códigos. É uma forma de pertença, de identidade e, muitas vezes, de diferenciação. Os nossos pais tiveram as suas expressões. Nós tivemos as nossas. Os mais novos têm agora as deles. A diferença é que, antigamente, as palavras viajavam à velocidade do bairro, da escola ou da televisão. Hoje viajam à velocidade do TikTok.

Em poucos dias, uma expressão criada num quarto em São Paulo pode estar a ser utilizada numa escola no Funchal, em Lisboa ou em Londres. O mundo tornou-se uma enorme sala de aula onde todos aprendem o mesmo vocabulário, ainda que nem sempre falem a mesma língua. Quando éramos mais novos, dizíamos que alguém era “giríssimo”, “fixe”, “bacano” ou “porreiro”. Hoje tem “rizz”. Antes havia namorados, apaixonados ou romances mal definidos. Agora existem ficantes, ficantes premium e até ficantes premium plus, uma classificação sentimental que parece saída de um catálogo de subscrições digitais.

Os relacionamentos também ganharam linguagem de aplicação móvel. Faz-se ghosting, recebe-se um match, identifica-se uma red flag e procura-se uma green flag. O amor, que sempre foi complicado, ganhou agora um manual de instruções em inglês.

Mas seria fácil cair na tentação de criticar. Dizer que os jovens já não sabem falar ou que a língua está a ser destruída. Todas as gerações disseram isso das gerações seguintes. E todas estavam erradas. O que está a acontecer não é o desaparecimento da comunicação. É a sua transformação. Os mais novos comunicam de forma diferente porque vivem num mundo diferente. Cresceram ligados a ecrãs, habituados a consumir informação em segundos, a misturar referências culturais de vários países e a construir identidades em espaços digitais onde uma palavra pode valer mais do que um longo discurso.

Os seus códigos não servem apenas para comunicar. Servem para criar comunidade. Para reconhecer quem pertence ao grupo. Para construir uma identidade própria num mundo cada vez mais globalizado. Talvez por isso os adultos se sintam tantas vezes perdidos. Não porque os jovens falem pior. Mas porque falam entre si numa frequência que já não é a nossa. A verdade é que também nós fomos incompreendidos. Também nós tivemos palavras que os nossos pais não percebiam. Também nós inventámos expressões que pareciam absurdas aos ouvidos das gerações anteriores. Lembro-me de uma vez o meu pai me perguntar se o lugar que estava disponível na rua dava para estacionar. Eu respondi que era “mel”. Ele seguiu e não estacionou e quando o questionei ele disse que percebeu “EMEL” e que não deveria ser para estacionar. Ficou irritado comigo pela minha linguagem.

O tempo passou. As palavras mudaram. E agora somos nós que precisamos de tradução. Talvez seja esse um dos sinais mais claros da passagem dos anos. Não são as rugas, nem os cabelos brancos. É quando percebemos que já não dominamos a linguagem das novas gerações. Mas há algo que permanece igual.

Por detrás do “rizz”, do “crush”, do “lowkey” ou do “ficante premium”, continuam a existir jovens à procura das mesmas coisas que procurávamos, amizade, aceitação, amor, reconhecimento e pertença. Mudam as palavras. Mudam os códigos. Mudam os emojis.

Mas o coração humano continua a falar uma língua que nenhuma geração precisa de traduzir.

Frases soltas:

Começou o Mundial e de forma legítima as aspirações da nossa seleção portuguesa apontam para uma oportunidade única de chegar a um título muito ambicionado. Excelentes laterais, o melhor meio campo do Mundo e um Ronaldo que tem a possibilidade de terminar uma carreira ímpar de forma perfeita. É altura de nos juntarmos todos, na rua, nos cafés, em casa, entre amigos, família ou desconhecidos. Juntos, a apoiar, a sofrer e a vibrar pelas nossas cores. Força Portugal!