Segurança energética volta ao topo das prioridades após apagão e tempestades
O Dia Mundial da Energia é assinalado este ano após um período em que o setor foi posto à prova por um apagão ibérico, tempestades que afetaram a rede elétrica e por nova tensão nos mercados internacionais.
Depois de anos em que o debate energético esteve centrado sobretudo na fatura e na transição renovável, a segurança do abastecimento e a resiliência das redes elétricas ganharam peso na discussão pública, num contexto em que o Governo defende que Portugal está hoje numa posição "relativamente robusta" no abastecimento físico, mas continua exposto aos preços internacionais.
Na quinta-feira, numa audição parlamentar sobre a evolução da crise energética desencadeada pelo conflito no Médio Oriente e os seus impactos em Portugal, o secretário de Estado Adjunto e da Energia, Jean Barroca, distinguiu entre exposição direta ao abastecimento físico e exposição económica aos mercados internacionais.
"No plano do abastecimento físico, Portugal encontra-se hoje numa posição relativamente robusta", afirmou, apontando as reservas estratégicas, infraestruturas diversificadas de abastecimento, a capacidade de receção de gás natural liquefeito no terminal de Sines e a capacidade nacional de refinação.
Em 2025 os principais fornecedores de crude foram o Brasil e a Argélia, enquanto, no gás natural, foram a Nigéria e o Brasil.
Apesar dessa posição, o governante admitiu que Portugal não está imune à evolução dos mercados internacionais. "Os mercados hoje são globais e, quando o preço internacional do petróleo sobe, sobe para todos", afirmou, acrescentando que o preço dos combustíveis pode depender mais rapidamente de um "tweet" do Presidente dos Estados Unidos do que de qualquer medida adotada em Portugal.
Em 2025, a fatura energética nacional representou 17,6% do défice comercial de mercadorias, o valor mais baixo da década, segundo a Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG). O saldo importador de produtos energéticos fixou-se em 5.579 milhões de euros, menos 5,3% do que no ano anterior.
Ainda assim, o petróleo bruto e os derivados continuaram a dominar as importações energéticas portuguesas, com 75% do total em valor, apesar da queda de 19% face a 2024.
No setor elétrico, as renováveis continuam a ter um peso elevado, mas 2025 mostrou sinais de abrandamento. Segundo a Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), as renováveis asseguraram 75,6% da eletricidade produzida em Portugal continental, mas a incorporação renovável no consumo caiu para 68%, abaixo da meta de 86% definida para 2025 no Plano Nacional de Energia e Clima.
A APREN considerou que 2025 marcou "um ponto de inflexão no setor elétrico nacional", com redução da incorporação renovável e aumento da produção a partir de gás natural após o apagão de 28 de abril de 2025. Entre maio e agosto do ano passado, a produção dos ciclos combinados quase quadruplicou face ao período homólogo de 2024.
Os dados mais recentes indicam, porém, uma recuperação do peso renovável. Em abril de 2026, as energias renováveis garantiram 77% da eletricidade produzida em Portugal continental, mês em que a solar fotovoltaica atingiu o valor mais elevado do ano, segundo a APREN.
A resiliência das redes passou também a ocupar lugar central no debate energético depois da tempestade Kristin, que afetou cerca de três milhões de consumidores, embora o pico simultâneo tenha sido de cerca de um milhão.
Esta semana, o presidente da E-Redes, José Ferrari Careto, admitiu que a rede elétrica ficou "mais frágil" depois das reposições provisórias para restabelecer rapidamente o fornecimento após o comboio de tempestades.
"Privilegiámos muito a rapidez, o que quer dizer que parte das soluções que nós implementámos são soluções não definitivas", afirmou no parlamento, acrescentando que a empresa está agora focada em consolidar e aumentar a resiliência nas zonas atingidas.
Além da segurança do abastecimento e da robustez das redes, a pobreza energética continua a marcar o setor. Portugal estima ter entre 1,8 e 3 milhões de pessoas em situação de pobreza energética, das quais entre 609 mil e 660 mil em pobreza energética severa, segundo a Estratégia Nacional de Longo Prazo para o Combate à Pobreza Energética.
A estratégia, aprovada em 2024, tem como meta erradicar a pobreza energética até 2050 e prevê medidas como a criação do Observatório Nacional da Pobreza Energética e de um modelo de Espaço Cidadão Energia.
Em março, o Governo aprovou também um quadro de medidas para situações de crise energética, incluindo mecanismos para acelerar renováveis, reforçar o acesso às redes, criar modelos de partilha de energia e proteger consumidores.
Para Jean Barroca, a resposta estrutural passa pela redução da dependência energética externa, através da eletrificação dos consumos, do reforço das redes, do armazenamento, do autoconsumo e dos gases renováveis, como o biometano.