É falsa a página de recrutamento da Comissão Nacional de Eleições e outras 74 de 26 países
São falsas as 75 páginas de supostos recrutamentos de pessoal de 27 comissões nacionais de eleições (CNE), incluindo de Portugal, Angola, Cabo Verde e Guiné-Bissau, cujas identidades foram usurpadas por uma rede responsável por centenas de páginas fraudulentas.
Alegação: "a Comissão Nacional de Eleições abriu um portal de candidaturas para recrutar novos funcionários"
A 17 de março, mais de um mês depois da segunda volta das eleições presidenciais de8 de fevereiro, a Lusa Verifica detetou uma página de um alegado "portal oficial de recrutamento do Comissão Nacional de Eleições (CNE)": https://archive.ph/5PihS.
Apesar de alojada no Blogger, uma plataforma de criação e alojamento de 'blogues' da Google, a página, entretanto eliminada, apresentava o logótipo oficial da CNE alojado no 'site' oficial: https://archive.ph/DKWus, e um formulário que solicitava nome, número de telefone, e-mail, data de nascimento, género e a indicação se a idade era maior de 18 anos.
Quando estava ativo, o dito portal tinha ainda um sistema de redirecionamento para o link curto https://tinyurl.com/gov-cne-pt sempre que se tentava recuar no browser, uma opção que deixou de funcionar pouco depois, porque o link foi removido pela TinyURL devido à violação dos termos de uso (https://archive.ph/SOgNw).
Factos: a suposta página de recrutamento da CNE e outras 74 de congéneres internacionais são fraudulentas
A deteção do suposto portal de recrutamento da CNE ocorreu durante um exercício didático no âmbito de um estágio curricular na Lusa Verifica de uma estudante cabo-verdiana, finalista de jornalismo, que estuda em Portugal.
O objetivo era mostrar como se pode analisar a origem de uma página falsa, neste caso da CNE de Cabo Verde (CNE CV), detetada recentemente, mas acabou por dar origem a uma investigação de várias semanas que detetou centenas de páginas falsas, como explicado em dois artigos já publicados pela Lusa.
Na sequência dessa investigação, foi possível descobrir que a suposta página da CNE portuguesa chegou a ser promovida através de um anúncio no Facebook que terá estado em exibição apenas uma hora entre 13 e 14 de janeiro: https://ghostarchive.org/archive/nxUHK?wr=false (clicar em "Don't see the archived webpage, or is the archived page not displaying properly? Click here" caso o link de arquivo não exiba o conteúdo).
Segundo a informação disponível na biblioteca de anúncios da Meta, dona do Facebook, a origem do anúncio era uma página suspeita de um alegado "Portal de recrutamento 'online'", criada em julho de 2025, aparentemente a partir da Nigéria, e cujo único anúncio registado era aquele, mas com referências a várias CNE nas poucas imagens disponíveis nas publicações: https://archive.ph/qtKkb e https://archive.ph/0eTGj.
A imagem usada no anúncio já havia sido detetada no código-fonte da página falsa, e remetia para um alegado recrutamento relacionado com as eleições presidenciais de 18 de janeiro: https://archive.ph/qIzaF.
Através da investigação forense da página, foi possível perceber que o criador desta e de mais nove páginas falsas, incluindo de mais quatro CNE, era o perfil "Fama", criado no Blogger em janeiro de 2026: https://archive.ph/zaioV.
Além das páginas da CNE PT e da CNE CV, esta com pelo menos dois endereços distintos originários de outros perfis (https://archive.ph/Y4yFI e https://archive.ph/yQYox), a análise dos códigos-fonte permitiu encontrar centenas de páginas produzidas por mais de 70 perfis no Blogger e no GitHub, uma plataforma de alojamento de código-fonte, responsáveis por cerca de 2200 endereços, 75 dos quais de alegadas campanhas de recrutamento de CNE de 27 países, algumas de anos anteriores, mas outras relativas a 2026.
Em praticamente todas, parte das imagens estavam de facto alojadas nas páginas oficiais das CNE de países que incluíam África do Sul (https://archive.ph/4p4wr), Benim (https://archive.ph/9N5e6), Nigéria (https://archive.ph/drpoi), Gana (https://archive.ph/okgwf) e Zâmbia (https://archive.ph/QMlgu), bem como Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) como Angola (https://archive.ph/wv4MO), Cabo Verde e Guiné-Bissau (https://archive.ph/VrnzA).
No caso destes links da Nigéria e da Zâmbia, exemplificativos das várias páginas relativas àqueles países, promovia-se o registo de eleitores e não o recrutamento de pessoal, mas a análise dessa e de outras páginas indiciava um aparente esquema de "phishing" - recolha ou roubo de dados pessoais através de páginas falsas -, ou outro esquema fraudulento para gerar receitas através de publicidade.
No final dos processos de registo, que a Lusa Verifica testou em dezenas de páginas, praticamente todas remetiam para lojas 'online' como as chinesas Aliexpress e Shein (https://archive.ph/uWJxt), para 'sites' alegadamente de instalação do navegador Opera, bem como para a subscrição de serviços pagos em operadores de telecomunicações ou outros destinos suspeitos potencialmente maliciosos, alguns impedidos pelos antivírus.
Contraditório: a CNE de Portugal desconhecia o caso
A equipa da Lusa Verifica pediu ajuda técnica ao Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS), entidade oficial que analisou um levantamento preliminar desta rede e concluiu que as páginas apresentam "padrões técnicos transversais" que apontam para uma infraestrutura partilhada entre vários 'sites' fraudulentos.
Apesar do perigo de 'phishing' (roubo de dados pessoais através de páginas fraudulentas), a análise da CNCS concluiu que os dados pessoais introduzidos nos formulários disponíveis nas páginas não aparentam ser enviados para os operadores.
Segundo o relatório técnico enviado à Lusa, focado nas páginas das CNE, o esquema de engenharia social recorre à "recolha de dados pessoais sem transmissão real ao operador, à partilha viral por WhatsApp e ao redirecionamento para páginas de publicidade", tudo com a utilização da imagem de entidades oficiais para "reforço de credibilidade".
A Lusa Verifica questionou também a Comissão Nacional de Eleições a 13 de maio, data em que a página ainda permanecia ativa (https://archive.ph/uUnaf), tendo a CNE admitido que "desconhecia a existência do caso".
Numa resposta escrita enviada no dia seguinte, a CNE esclareceu que "apenas utiliza canais oficiais para o recrutamento de trabalhadores, nomeadamente o seu sítio institucional ou a BEP (Bolsa de Emprego Público) e não tem em curso qualquer procedimento de recrutamento de trabalhadores."
André Wemans, porta-voz da CNE, informou também que "foram já acionadas as medidas adequadas, designadamente junto do CNCS e o preenchimento dos devidos formulários junto de diversas plataformas para a remoção do conteúdo do blogspot em causa."
Na sequência deste contacto, a página falsa foi removida do Blogger, bem como outras páginas falsas do mesmo perfil, que a 23 de maio continuava ativo ainda com seis ligações falsas: https://archive.ph/PqXW9.
Nos últimos anos, algumas das CNE de países visados também foram sendo alertadas pelo público para a existência de algumas destas páginas fraudulentas ou semelhantes e lançaram alertas, como as CNE de África do Sul (https://archive.ph/kN7Fm), Cabo Verde (https://archive.ph/OnA42), Guiné-Buissau (https://archive.ph/JB43S), Nigéria (https://archive.ph/zp4UM e https://archive.ph/tq4rS), entre outras.
Alguns projetos de verificação de factos em Angola (https://archive.ph/dvBiw) e ou o projeto Africa Check (cujo site não permite o arquivo de links), por exemplo, também publicaram verificações sobre algumas destas páginas falsas, mas não se aperceberam da dimensão da rede fraudulenta.
A Lusa Verifica encontrou contactos associados a vários dos perfis analisados, incluindo aos autores de algumas destas páginas falsas, aos quais enviou pedidos de esclarecimento, mas ainda não obteve respostas.
A 13 de maio, também foi pedida uma reação à Google, dona do Blogger, empresa à qual foi enviada a lista integral de perfis identificados, incluindo os que estão em modo privado mas com informação acessível através de serviços de arquivo como o Wayback Machine, e cujas páginas fraudulentas violam a Política de Conteúdos e as Regras da Comunidade da Blogger, mas ainda não foram obtidas respostas nem os perfis foram eliminados.
Esta investigação da Lusa Verifica, divulgada hoje em parceria com o programa O segredo do Algoritmo, da RTP Notícias, resultou numa base de dados e num arquivo que serão disponibilizados a organizações internacionais de verificação de factos de modo a permitir novas investigações.
Avaliação Lusa Verifica: Falso
É falso que antes das eleições presidenciais a Comissão Nacional de Eleições (CNE) portuguesa tenha lançado um "portal oficial de recrutamento" de funcionários na plataforma Blogger, da Google, que aloja dezenas de páginas igualmente falsas de outras CNE.
Uma grande investigação da Lusa Verifica encontrou perto de 2.200 endereços fraudulentos, cerca de 1.400 dos quais ainda ativos, associados a pelo menos 73 perfis nas plataformas Blogger e GitHub, e que incluem 75 páginas falsas de CNE de 27 países, incluindo PALOP como Angola, Cabo Verde e Guiné Bissau.