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Fotos: Rui Silva/Aspress e Arquivo DIÁRIO
Rostos da Autonomia Madeira

Um ‘senador’ da política madeirense

António Trindade foi visto como a grande aposta da oposição madeirense para enfrentar o PSD, foi a votos e teve bons resultados, mas acabou por assumir compromissos empresariais.

É presidente de um dos maiores grupos hoteleiros portugueses, uma referência no turismo e, desde há vários anos, comentador da política e da economia. Um estatuo de ‘senador’ que António Trindade assume, mas não foi sempre assim.

Até meados da década de 90 do século passado, foi apontado como a grande alternativa que a oposição regional poderia apresentar para enfrentar o poder do PSD. Foi candidato à Câmara do Funchal e conseguiu o melhor resultado do PS até então, repetiu os bons resultados para a Assembleia da República e até foi apontado como possível membro de um Governo da República de António Guterres.

A vida empresarial, iniciada muito cedo, obrigou a tomar decisões que o iriam afastar da política.

Mas tudo começou muito antes, ainda no início da década de 60 e sob a influência de um meio familiar que convidava ao pensamento livre e à discussão, como recorda no podcast ‘Rostos da Autonomia’ (https://podcasts.dnoticias.pt/rostos-da-autonomia/).

Aos 12 anos, no Liceu, foi interrogado, durante toda uma manhã, por dois agentes da PIDE, a polícia política da ditadura de Salazar. Ganhou o estatuto de ‘politicamente suspeito’ muito cedo, ao ponto de afirmar, no podcast que pode ver e ouvir em dnoticias, que foi “ps muito antes de ser do PS”.

“O meu pai foi um homem da oposição ao antigo regime e como tal nasci nesse ambiente, com o privilégio de partilhar, não só com ele com a sua geração, mas com algo que é particularmente importante e que era transversal à minha geração que é a guerra de África. Aguerra de África determinou nas gerações de jovens um  grau de maturidade muito grande”, recorda.

Muito novo cria um  grupo de teatro que depois foi “um grupo de exercício de capacidade crítica onde estavam o Vicente Jorge Silva, o Ara Gouveia, o José Maria Amador, onde havia outros amigos e colegas, como o João José Teixeira, o David Caldeira”.

Tempos em que discutir e debater eram acções arriscadas, mesmo para um jovem.

“Tínhamos consciência disso. Não me posso esquecer de algo que foi muito marcante comigo. Tinha 12 anos quando foi uma inspecção dos serviços do Ministério da Educação, que se sentia que eram agentes da PIDE e sou, juntamente com dois ou três colegas, chamado ao gabinete do médico e do Liceu e estou, durante uma manhã, a ser interrogado por dois agentes sobre o que é que eu pensava e o que recebia de mensagens do Vicente Jorge Silva”

Filho de um empresário hoteleiro opositor ao regime e de mãe belga, desde muito cedo António Trindade viveu num meio em que o livre pensamento era regra e ganhou consciência política.

“A recordação que tenho do meu pai é de um dos homens mais inteligentes que conheci. (…) Mas houve outra pessoa que, em termos de contributo cívico e político, teve também muita importância que foi a Maria Lamas que viveu connosco durante dois ou três anos. Era uma mulher de excelência, defensora de causas”.

Faz parte do grupo do Comércio do Funchal e acaba por ser o ‘representante’ do ‘jornal rosa’ em Lisboa.

“No período áureo do Comércio do Funchal eu já não estava cá, já estava a estudar em Lisboa. Lembro-me sempre que o meu principal contributo foi fazer a primeira distribuição do Comércio do Funchal na cantina universitária de Lisboa”.

Na Faculdade de Direito é colega, entre outros, de João Soares, filho de Mário Soares.

“Apanhei esse período de consciencialização importante. Nesses primeiros dois anos, fruto das relações privilegiadas que o meu pai tinha e também através da Maria Lamas, com muitos exilados políticos em Paris, nomeadamente com uma pessoa de particular destaque que foi Mário Soares. Eu conheci o Mário Soares anteriormente e nos dois primeiros anos de faculdade estudei com o João Soares. Nessa altura tive o privilégio de conhecer gente com particular destaque. Sou do ano de entrada do Marcelo Rebelo de Sousa, Jorge Braga de Macedo. Também pertenci à associação académica de Direito”, lembra.

O 25 de Abril de 1974 ‘apanha-o’ no serviço militar e é nessa condição que acompanha os anos ‘quentes’ de 1974 e 1975, já na Madeira.

“Fui para a tropa já como licenciado em Direito. Normalmente aos licenciados era atribuída uma especialidade de acordo com a formação que tinham, a menos que fosse politicamente suspeito. Fui PS antes de ser do PS. Sou chamado em Janeiro de 1974 quando toda a gente sabia que havia algo de grave a acontecer. Há datas marcantes e para mim, que já tinha um filho de quatro anos e a minha mulher esperava a nossa filha. No dia 19 de Março, dia do pai, é-me comunicado que o cadete Trindade tinha a especialidade de atirador de Infantaria. Nestas circunstâncias, como politicamente suspeito, implicava ser enviado pera os piores cenários”.

Preparava-se para sair do país, ir para a Bélgica onde tinha família materna, mas decidiu manter-e em Portugal até ver.

“Faço a especialidade em Mafra e é nesse momento que acontece o 25 de Abril. A minha relação com o 25 de Abril, independentemente de tudo foi a gratidão a uma data porque estava em causa a minha situação pessoal”.

Com a Revolução a vida de António Trindade tambémmuda e vem para a Madeira e acaba pro ser oficial de Justiça no Quartel General, ao serviço do general Carlos Azeredo.

Passarão por ele alguns processos dos tempos quentes da FLAMA.

Adere ao PS a convite de Nuno Jardim Fernandes e integra a vereação da Câmara Municipal do Funchal. Num gesto inédito, Virgílio Pereira convida o vereador socialista a ter funções executivas e é assim que vai gerir a grande alteração ao trânsito da cidade e a obra do Lido.

Com naturalidade, é cabeça-de-lista do PS nas eleições autárquicas de 1982 e consegue o melhor resultado do partido, 36%.

António Trindade, já com carreira na hotelaria e turismo, com um grupo empresarial que  hoje é de grande referência nacional - Grupo_Porto Bay -, é visto como a alternativa clara da oposição para enfrentar o poder do PSD.

“Sobretudo pelo que poderia representar. Eu tinha uma coisa importante, representava poder, liderava um grupo hoteleiro. Por outro lado, o núcleo de amigos que se identificavam com o projecto era importante. Duas figuras marcantes foram o Luís Amado e o David Caldeira que personificavam alguma classe pensante que apresentava mensagens alternativas”.

Não foi líder do PS, mas foi sempre apontado como a aposta para o Governo Regional.

Ao nível nacional, nos governos de António Guterres, o seu nome surgiu sempre como uma forte possibilidade, mas os compromissos assumidos com os sócios levaram a que decidisse, na década de 1990, deixar a política.

António Trindade construiu um grupo hoteleiro com presença internacional e reconhece que a experiência política, sobretudo a autárquica,  ajudou a que tivesse uma visão diferente da economia e da vida empresarial.

“Foi muito devido a uma conversa com os meus sócios e co-investidores no projecto, particularmente o Richard Blandy e que me comentou a intenção do Grupo Blandy de fazer a aposta no gupo que represento mas queria saber, no futuro, como era. Não poderia ser presidente executivo de um grupo e dedicar o meu tempo à política”, explica.

Acaba mesmo por deixar a militância partidária.

“Continuei no partido pouco mais tempo, sentia que seria particularmente diferente. (…) Tive o estatuto de D. Sebastião durante algum tempo e esse sebastianismo é uma coisa muito complicada que me obrigou a tomar essa decisão. (…) Houve um período de refiliação e decidi não me refiliar. Não quero renegar esta ligação, até muito afectiva, mas tomei a decisão de optar pela via empresarial”.

Com 78 anos, assumiu o estatuto de ‘senador’ da política madeirense e é um dos comentadores de referência em diversos meios de comunicação.

Sobre o futuro da Autonomia aponta caminhos: “Olhando para o futuro, diria que definir muito bem quais os parâmetros das relações do Estado com as regiões, ver as nossas capacidades financeiras e renegociar o exercício de poder entre a região e as câmaras.”