Sobrinho Simões defende nova medicina centrada nas pessoas
Conferência '50 Anos de Autonomia - Saúde' destacou investigação na Madeira
O médico patologista Manuel Sobrinho Simões, fundador do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular e Celular da Universidade do Porto (IPATIMUP), defendeu na Madeira uma mudança profunda no paradigma da medicina, centrada na ligação entre investigação científica, prática clínica e impacto directo na vida das pessoas.
Na sua intervenção na conferência “50 Anos de Autonomia – Saúde”, sublinhou que o futuro da medicina depende cada vez mais da articulação entre ciência e cuidados de saúde, com sistemas capazes de transformar conhecimento em benefícios concretos para os doentes e para as famílias.
Sobrinho Simões destacou o projecto do centro de investigação em saúde em desenvolvimento na Madeira, considerando-o uma oportunidade singular para aproximar investigação, hospital e universidade. A dimensão insular foi apontada como uma vantagem científica, permitindo estudar populações de forma contínua e integrar dados clínicos, genéticos e ambientais.
O especialista recuou ao início do processo, em 2018, para lembrar o envolvimento de instituições regionais, da Universidade da Madeira e de parceiros científicos e empresariais, sublinhando a importância do financiamento privado num contexto em que a filantropia é ainda limitada em Portugal.
Durante a conferência, defendeu uma transição da medicina centrada em órgãos para uma abordagem mais transversal, baseada na prevenção, no diagnóstico precoce e na personalização dos cuidados. Alertou ainda para o risco do excesso de diagnóstico e da medicalização de achados sem relevância clínica.
“Temos de compreender e personalizar”, sintetizou, defendendo que o desafio central é adaptar o conhecimento científico a cada pessoa concreta.
O médico destacou também o aumento da longevidade e a necessidade de distinguir entre viver mais e viver melhor, defendendo que os sistemas de saúde devem garantir autonomia e qualidade de vida.
Referiu ainda o crescimento das doenças crónicas, como o cancro e as doenças cardiovasculares, sublinhando a importância de equipas multidisciplinares e modelos de acompanhamento contínuo.
Sobre tecnologia, considerou inevitável o avanço da inteligência artificial na medicina, mas rejeitou a substituição do médico, defendendo uma articulação entre decisão clínica e ferramentas digitais.
Sobrinho Simões concluiu que a Madeira pode afirmar-se como um território estratégico para investigação em saúde, pela sua dimensão e capacidade de articulação institucional, onde ciência, tecnologia e cuidado humano devem evoluir em conjunto.