Quinzena das comemorações

Acabamos de ultrapassar uma quinzena de que podemos designar a quinzena das comemorações.

O 25 de abril, o Dia da Mãe, o Dia do Trabalhador e outras mais que não vale a pena aqui pormenorizar.

Antes de falarmos das comemorações do 25 de abril, apraz-nos referir um facto que nos merece particular atenção.

Trata-se de uma intervenção do Sr. Presidente da República onde falava da necessidade de recuperamos a nossa identidade.

Foi preciso esperarmos quase 50 anos para ouvirmos de alguém com responsabilidades políticas, sociais e governamentais deste País, falar da necessidade de termos um Portugal com uma identidade própria, com valores, com dignidade, com carácter que nos prestigie não só internamente, como aos olhos de uma Europa e do resto do Mundo.

Foi uma intervenção digna que nos merece realçar.

Só que, poucos dias depois, no discurso sobre o 25 de abril já não foi – a nosso ver – muito feliz. Limitou-se a enumerar o que as mulheres e os homens têm hoje e que se não fosse o 25 de abril não tinham, atirando para “falhas da democracia” o que de ruim o país e o povo têm suportado ao longo destes anos. «

Mas não nos parece ser bem assim. Tudo que há de bom deve-se a abril, tudo o que não presta a “falhas da democracia”.

Primeiro, porque ninguém nos garante que o País hoje estava igual ou pior do que há 50 anos) nenhum País europeu está, mesmo os que saíram de ditaduras mais ferozes do que a nossa e não tiveram nenhum 25 de abril), e, segundo, as únicas provas que temos de hoje podermos estar pior do que nesse tempo, era se o rumo que o país levava após abril, não tivesse sido parcialmente estancado pelo 25 de novembro.

Não tínhamos entrado na União Europeia (alguns revolucionários, radicais antifascistas não queriam) não tínhamos evoluído, antes pelo contrário, teríamos passado de uma ditadura branda, para uma mais dura e criminosa existente na época. Não há ditaduras boas e más, mas existem umas muito piores que outras.

Aliás, lamentamos, mas não nos admiramos que não houvesse uma alma das que preconizaram e levaram a efeito o glorioso 25 de abril, que tivesse a coragem de dizer que este não foi, nem é, o Pais pelo qual lutaram e tudo fizeram para que fosse outro e que seja este o modelo de país que prometeram ao povo.

Uns, talvez pela sua atual idade, ainda nos leva a admitir o seu silencio, mas outros, muito provavelmente, só porque o 25 de Abril ao morrer ter deixado como herança, uma enorme vaca com milhentas tetas onde muito boa gente se tem alimentado há décadas, pode justificar a falta de coragem de dizerem a verdade.

- Quanto ao Dia da Mãe, num País mergulhado na falta de respeito, de obediência e sobretudo de gratidão, a celebração do Dia da Mãe impõe-se , por um lado, para que os bons filhos e filhas manifestem de modo, digamos, mais festivo o seu carinho e o seu amor - se bem que para estes todos-os-dias sejam dias da mãe – e, por outro lado, recordar aqueles e aquelas que só se lembram das mães nas horas de aflição ou as substituem pelos aparelhos eletrónicos ou animais de estimação.

- O Dia do Trabalhador que deveria ser um dia de alegria, de festividade, transformou-se em dia de lutas, de reivindicações, algumas com cariz laboral, o que é admissível, quando justas e coerentes, e outras, inconcebivelmente de carácter politico/partiíário, que só nos merece o maior repúdio.

Enfim, é o que temos, foi o que tivemos.

Juvenal Pereira