O silêncio da solidão dos solitários
Sendo uma sobrevivente do silêncio, posso afirmar que muitas vezes é sentido alegremente, outras vezes sentido de forma organizada. Outras, por imposição.
Vejo e sinto o silêncio da nossa sociedade que prefere “engolir” do que manifestar. Podemos dizer que, neste último seria um “silêncio”, onde percebo qual a dimensão da minha baliza de intervenção. Todavia existe um silêncio que se sabe, é castrador do pensamento genuíno, verdadeiro, daquele que vai para além, das fronteiras impostas por uma sociedade vulgar, em que o senso comum do silêncio imposto é natural. Socialmente, é-nos imposto um silêncio de sobrevivência social, profissional e familiar.
Para alguns a solidão é desejada, onde existem aqueles que ambicionam o isolamento, alheios do envolvimento circundante. Como dizia para uma amiga, é quase semelhante a um estado “Flow”, no qual as pessoas antevêem a próxima ação e/ou evento, permanecendo num estado de foco total, desejando que o tempo pare.
Suponho que, imaginando e antecipando as suas ações futuras naquele evento para que o erro seja apenas, estatisticamente falando, de um simples “Outlier”, foram do comum. Nesse estado, as suas ações são levadas para o caminho para o sucesso. Ao nível mental, até podem usufruir de hormônios neurotransmissores, promovendo-lhes sensações de bem-estar, desejando que o tempo pare, no seu estado “Flow”.
Para outro, o silêncio imposto, aqueles que convivem com o solitário, muitas vezes num estado de silêncio prolongado, conseguem sentir o silêncio do solitário, de forma prolongada, quase como forçado de forma abismal, correndo-se o risco de perder o meu tempo… um vínculo que foi conquistado ao longo de uma convivência em comum, e foi sendo conquistado ao longo dos tempos pela solidão do silêncio.
Não obstante ao já descrito, Rousseau disse que, precisa do ato da solidão para poder se entregar ao seu “eu génio”, por forma a lhe permitir trabalhar na totalidade, a usa grande obra.
A solidão desejada durante o namoro, vida em comum e casamento entre os pares, poderá fazer parte de um acordo recíproco, entre a solidão desejada, aquela que é acordada com o desejado, permitindo que o outro usufrua dos seus momentos para pensar em silêncio, criar, sentir… poder usufruir das suas emoções, poder desligar o botão da realidade, sem perturbações e ainda poder usufruir de uma companheira que consiga compreender a realidade da sua necessidade: estar sozinho com a sua solidão!
A tomada de decisão consciente, para todos os intervenientes no processo deste acordo, faz parte de um acordo entre dois seres, cuja liberdade dos envolvidos não transgridem as congruências dos seus valores, do seu estado emocional e mental.
Por outro lado, a liberdade do outro, a quem foi “forçada” e / ou que consentiu, esta solidão necessária ao bem-estar do seu par, poderá suprimir este “viver solitariamente” no tempo que residirá viver a solidão do outro, de forma ativa, rodeando-se de pessoas que lhe promovam sensações de alegria e bem-estar, ainda que de forma silenciosa respeite o silêncio da solidão do seu par.
Poderá competir a quem está ao lado, também saber entender o tempo que deseja ficar só de boa vontade porque todos sabemos que o silêncio poderá ser amigo em muitas ocasiões, porém castrador em outras.
O silêncio da solidão poderá ser tolerado, se for aprendido, compreendido e acima de tudo conseguir conviver com o silêncio do solitário, sem permitir que se torne num ato venenoso e contínuo temporalmente.
Ao silêncio dos solitários, saibamos lhes dar o tempo para estar connosco e de estarem com eles próprios, sem interferir no seu pensamento criativo, focado nas próximas ações, nos seus atos futuros. Saibamos ter a consciência que o tempo que lhes damos para estar connosco, será tão gratificante quanto o tempo do silêncio onde ele se encontrava.
Olhemos para o silêncio da solidão não como algo castrador, mas como um construto de momentos, de trilhos, de caminhos, entre duas solidões que se emanam em qualquer contexto.
Aditti Deos