O suicídio é a principal causa de morte materna
Na semana passada as redes sociais encheram-se de flores, de mensagens e de fotografias. As mães foram celebradas, homenageadas, adoradas. Quando a semana terminou, o quotidiano retomou o seu curso, e foi precisamente nesse regresso que o problema verdadeiro se tornara visível.
O problema das mães não é a falta de reconhecimento simbólico. As mães carecem de apoio real, concreto e sistemático nos momentos em que mais precisam: os primeiros meses após o nascimento de um filho, quando o corpo ainda está a recuperar, quando a identidade se reconstrói do zero, quando a exaustão é total e quando a solidão, com frequência, também o é.
Considere-se o caso de uma mãe de seis semanas. O bebé acaba de adormecer e ela está sentada na cozinha, imóvel, demasiado cansada para comer e demasiado ansiosa para descansar. O telemóvel regista dezassete mensagens a perguntar como está o bebé. Nenhuma delas pergunta como ela se encontra.
Esta situação não é ficção, mas antes o quotidiano documentado de uma proporção alarmante de mães, e os números que lhe estão subjacentes são difíceis de ignorar. Uma em cada quatro mães desenvolve depressão pós-parto. No Reino Unido, o suicídio é a principal causa de morte materna no primeiro ano após o parto, segundo o relatório nacional de mortalidade materna de 2023. Nos Países Baixos, um estudo publicado em 2024 chegou à mesma conclusão. Nos Estados Unidos, a violência doméstica e o homicídio representam mais de um quarto de todas as mortes maternas. Não se trata de casos raros, mas de uma crise de saúde pública silenciosa que acontece exatamente no momento em que a sociedade está ocupada a celebrar o nascimento de uma nova vida.
A maioria das mães enfrenta esta realidade sozinha, não porque os pais estejam ausentes, pois muitos estão presentes e querem ajudar, mas porque ninguém os preparou para o que está realmente a acontecer. As aulas de preparação para o parto ensinam como segurar um recém-nascido, como amamentar e como reconhecer sinais de mal-estar no bebé. O que não ensinam, e o que a investigação mostra ser decisivo, é como cuidar da mãe.
Vários estudos apontam para algo que inverte a lógica habitual: nos primeiros meses, o papel mais urgente do pai pode não ser cuidar diretamente do bebé, mas cuidar da mãe para que ela possa cuidar do bebé. Um pai que garante que a mãe dorme, que come, que tem momentos de descanso e que se sente vista e apoiada está a fazer mais pelo bebé do que se cuidasse do bebé directamente. Esta lógica é simples, mas permanece amplamente desconhecida.
Os familiares também não sabem o que fazer. Chegam, ficam horas e partem sem ter aliviado nenhuma responsabilidade. A mãe fica mais esgotada do que estava antes da visita, porque se viu obrigada a receber quando o que precisava era de descansar. Cada conselho não solicitado sobre amamentação ou posição de sono comunica, implicitamente, que o seu julgamento não é de confiança. Quando as visitas terminam, o silêncio regressa, e com ele a consciência de que a atenção de todos esteve, desde o início, dirigida ao bebé e não a ela.
Não se trata de fraqueza individual, mas do resultado previsível de um sistema que coloca uma responsabilidade enorme sobre os ombros de uma pessoa sem lhe dar o suporte profissional de que precisa, sem preparar adequadamente quem a rodeia e sem reconhecer a sua saúde mental como prioridade colectiva.
O que poderia ser diferente é bastante. Uma sociedade que leva a sério o bem-estar das mães começaria por garantir que nenhuma mãe passa os primeiros meses sozinha. Não através de boas intenções, mas através de estruturas concretas: grupos de apoio pós-parto onde o esgotamento seja normalizado em vez de escondido, assegurados por profissionais com formação específica e não dependentes da iniciativa individual de quem se encontra já em situação de vulnerabilidade; espaços equivalentes para os pais, porque a depressão pós-parto afeta também entre 8% e 10% dos homens e eles raramente dispõem de contextos adequados para o abordar; acompanhamento psicológico do casal no período perinatal, que a investigação mostra reduzir o risco de depressão pós-parto em mais de 20%; e consultas regulares de saúde mental para a mãe ao longo do primeiro ano, com a mesma naturalidade com que se fazem as consultas de desenvolvimento do bebé.
Em Portugal, a licença parental permite até cinco meses de ausência remunerada. Este período garante tempo, mas não resolve o isolamento, não substitui o acompanhamento profissional e não prepara adequadamente nem a mãe nem quem a rodeia para o que os primeiros meses realmente exigem. É precisamente nesse vazio estrutural que se instalam as consequências mais graves. E é esse vazio que nenhuma flor preenche.
Uma sociedade que leva a sério o bem-estar das mães trataria a saúde mental de quem cuida de um recém-nascido com a mesma urgência com que trata qualquer outra emergência médica, não como um problema privado de cada família, mas como uma prioridade colectiva.
Esta semana as mães receberam flores. O gesto é bonito, mas insuficiente. O que as mães precisam não cabe num ramo, mas numa política pública, numa rede de apoio real e numa sociedade que decida, de uma vez, estar genuinamente presente, e não apenas uma vez por ano.
Natália Macedo