Vergonha e justiça
A imprensa escrita de âmbito nacional devia ter vergonha. O silêncio, ou a deliberada secundarização, em torno da conquista do Club Sport Marítimo como campeão da II Liga não é apenas lamentável. É revelador.
Revelador de um padrão antigo, persistente e cada vez mais difícil de justificar: o centralismo editorial que dita o que “merece” ou não atenção, como se o país desportivo se esgotasse num eixo previsível e limitado. Ignorar um título nacional, alcançado com mérito inequívoco por um clube histórico, não é uma falha pontual, antes uma escolha. E essa escolha diz muito sobre o estado da imprensa nacional.
Num momento em que tanto se discute credibilidade, proximidade e relevância, esta omissão expõe uma desconexão preocupante entre quem informa e a realidade diversa do país que deveria representar. Não se exige favoritismo, exige-se rigor. Não se pede destaque artificial, pede-se justiça informativa.
Em sentido inverso, importa sublinhar, com toda a clareza, justiça e reconhecimento, o trabalho dos órgãos de comunicação social madeirense, nomeadamente deste nosso DIÁRIO que nunca escondeu os nossos feitos e não deixou de noticiar a vida verde-rubra, apesar da descida de divisão e de algumas críticas de voz grossa, muito bem rebatidas. Esses, sim, estiveram à altura do momento. Valorizaram, contextualizaram e deram o devido destaque a um feito que orgulha uma Região e dignifica o desporto nacional. Fizeram jornalismo com sentido de responsabilidade, proximidade e respeito pelos seus leitores.
E é precisamente aqui que se evidencia uma tendência que muitos ainda insistem em ignorar. É por episódios como este, e por muitos outros semelhantes, que a chamada imprensa regional ganha terreno, relevância e futuro. Porque está mais próxima, porque compreende melhor, porque não precisa de filtros centralistas para reconhecer o que é verdadeiramente importante.
Se a imprensa nacional continuar a escolher o silêncio quando deveria escolher o rigor, não será surpreendente que perca, de forma progressiva, aquilo que mais a sustenta, a confiança e a atenção dos seus leitores que, diga-se, já são bem poucos na Madeira.
Manuel A. Silva