“Mãe, adeus”
O apelo vem escrito hoje nas páginas do DIÁRIO. Era simples e desesperado. Rabih, filho libanês de Maria Elda Martins, pedia tempo. Pedia que ela resistisse mais um pouco. Pedia um encontro que esteve quase a acontecer
O tempo não chegou. Maria Elda morreu na madrugada de hoje, poucas horas depois de a história que uniu mãe e filho ao fim de quase 50 anos ter voltado a ganhar voz. Estava nos cuidados intensivos, depois de um agravamento súbito que desfez, em poucas horas, tudo o que parecia encaminhado para um regresso a casa.
A noite foi uma sucessão de quedas. Paragens cardíacas, intervenções médicas, tentativas de manter o coração a bater. Mas houve um momento em que deixou de ser uma luta. Passou a ser uma espera.
A filha, a Anabela, percebeu-o. Saiu de casa ainda de madrugada, foi do Caniço em silêncio e entrou no hospital com a pressa de quem já sabe. Disseram-lhe para descansar. Não saiu.
Ficou.
Ficou porque há momentos em que sair é perder. E ela sabia que aquele era o último.
Por volta das cinco e meia da manhã, terminou.
Mas antes disso, houve um instante. Breve. Frágil. Suficiente para marcar tudo.
Rabih ainda chegou. A tempo de ver a mãe viva. Foi só tempo de uma só videochamada. Para se despedir da mãe.
Tinha tentado antecipar a viagem. Lutou contra horas, voos, burocracias. Não conseguiu chegar a tempo de um reencontro. Nem sequer chegou a tempo de um adeus.
Nos últimos sinais de consciência, Maria Elda chamou por ele. Não foi preciso mais nada. Um nome dito no limite entre o estar e o partir.
Ele respondeu. Chamou pela mãe, vezes seguidas, como se a pudesse puxar de volta pelo som da voz. Ao lado, a irmã acompanhava, entre lágrimas e beijos, um fim que já não tinha volta.
Pouco depois, tudo ficou em silêncio.
Rabih chega amanhã à Madeira.
Chega para um abraço que ficou por dar. Para um encontro que resistiu a quase meio século, mas não resistiu a uma noite.
Esperou uma vida inteira para a voltar a ver.
E isso é uma dor que não tem tempo.