Costa da África Ocidental é a principal fonte de microdetritos no Atlântico Sul
A maioria dos microdetritos encontrados no oceano Atlântico Sul, concentrados sobretudo em torno do Equador e na costa do Brasil, tem origem na costa da África Ocidental, segundo um estudo.
Através da recolha de amostras de água do mar ao longo de quase 8.000 quilómetros, desde Salvador (Brasil) até ao estreito de Gibraltar, o estudo identificou as principais fontes geográficas destas micropartículas, a sua distribuição em larga escala e os processos que influenciam a sua acumulação no oceano.
Para isso, os investigadores combinaram a análise de amostras recolhidas em ambas as extremidades do Atlântico com um modelo de dispersão oceânica capaz de rastrear a trajetória das partículas com base na velocidade e direção das correntes oceânicas.
O trabalho foi realizado pelo Instituto de Ciência e Tecnologia Ambiental da Universidade Autónoma de Barcelona (ICTA-UAB), noticiou na quarta-feira a agência Efe.
Os resultados mostraram que as correntes equatoriais transportam estas partículas da costa da África Ocidental para o Brasil e outras zonas remotas do Atlântico, embora também sejam detetadas contribuições secundárias do norte do Brasil para as zonas próximas do noroeste de África e da Península Ibérica para as Canárias.
"Este trabalho permitiu-nos confirmar que estas partículas podem acumular-se mesmo em áreas remotas, como o Atlântico Central, e percorrer grandes distâncias desde as suas fontes", destacou Stéphanie Birnstiel, autora principal do estudo, citada em comunicado.
De acordo com os investigadores, fatores como o vento, as ondas, as correntes oceânicas e as interações biológicas influenciam a dispersão destas partículas.
Quanto às suas características, as partículas mais pequenas, dominadas por fragmentos, são as mais abundantes, enquanto as maiores, formadas sobretudo por fibras, são menos numerosas.
"O estudo demonstra ainda que o Hemisfério Norte concentra uma maior quantidade de micro-resíduos, especialmente fibras celulósicas, o que está relacionado com uma maior densidade populacional, um maior nível de industrialização e com os mecanismos de acumulação do Atlântico Norte", explicou a coautora Patrizia Ziveri.
Embora estas fibras, associadas à lavagem doméstica de tecidos como o algodão, sejam de origem natural, biodegradam-se muito lentamente devido aos tratamentos químicos, corantes e aditivos utilizados durante o seu fabrico.
Assim, os investigadores do ICTA-UAB realçaram a necessidade de abordar esta questão numa perspetiva global, uma vez que os seus efeitos "transcendem fronteiras e ecossistemas".