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António Costa diz que Europa não aceita unilateralismos disruptivos dos EUA

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Foto EPA

O presidente do Conselho Europeu afirmou hoje que os europeus são "pragmáticos" e aceitam que os Estados Unidos (EUA) tenham novas prioridades estratégicas, mas frisou que a União Europeia (UE) não aceita "unilateralismos disruptivos nem violações à ordem internacional".

António Costa discursava, através de um vídeo, na parte final dos trabalhos da conferência "Relação Atlântica e Futuro da Europa", organizado pelo Foro La Toja, que decorreu hoje na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, na presença de especialistas e analistas políticos portugueses e estrangeiros.

"Somos pragmáticos, temos uma história comum, mas por vezes interesses distintos. Aceitamos que os Estados Unidos tenham novas prioridades estratégicas, mas não aceitamos unilateralismos disruptivos, nem violações ao direito internacional, nem tão pouco atitudes coercivas sobre os aliados", afirmou Costa.

Para o antigo primeiro-ministro português, a UE sempre foi fiel aos seus princípios e à defesa dos interesses europeus, pelo que a força reside na autonomia e na soberania europeias.

"O interesse europeu, mas também transatlântico, passa precisamente por uma Europa próspera, que possa investir mais na sua defesa e na coesão da nossa democracia. E pelo regresso da paz, em definitivo, ao nosso continente", argumentou.

"São, aliás, estas as condições que permitirão aos próprios Estados Unidos operar a viragem estratégica que pretendem. A autonomia europeia é o garante que a relação transatlântica continuará, apesar dos protagonistas, mas que se reinventa para enfrentar com mais capacidade os desafios tremendos que temos pela frente", frisou.

Para António Costa, numa breve síntese sobre a estratégia da UE num momento de reconfiguração da ordem internacional, são duas as principais tendências que estão a marcar as relações internacionais. 

"Por um lado, uma crescente violação da ordem baseada nas regras que vigorava desde o pós-guerra. Um mundo onde o poder da força prevalece o poder da lei. Um mundo em que o direito internacional é frequentemente ignorado, onde grandes potências violam a paz e perturbam o comércio internacional", sustentou. 

"Por outro, o mundo está a tornar-se cada vez mais multipolar. Mais economias emergentes ganham escala, confiança e poder e mais países de média dimensão aspiram a desempenhar papéis relevantes", defendeu o presidente do Conselho Europeu.

Nesse sentido, Costa questionou sobre qual é então a função da UE neste contexto, respondendo que essa estratégia passa por três palavras, os "três P's": princípios, parcerias e poderes.

Para Costa, a UE deve defender os seus princípios e continuar a apoiar uma ordem internacional baseada em regras, ancorada nos princípios da Carta das Nações Unidas. 

"É do nosso interesse garantir que o mundo continue cooperativo e baseado em regras aceites por todos. Porque o oposto da cooperação é o conflito e o oposto das regras é o caos. E hoje vemos esse caos na Ucrânia, no Médio Oriente, em Gaza, no Sudão. Por isso, desde o primeiro dia da invasão da Ucrânia pela Rússia, a União Europeia apoiou a Ucrânia política, financeira, diplomática e militarmente e continuará a fazê-lo até que se alcance uma paz justa e duradoura", afirmou. 

Mas, argumentou Costa, princípios não chegam, pelo que, para defender a lei internacional são necessárias parcerias e a Europa deve reforçar o multilateralismo e expandir a sua rede de alianças.

"Somos uma grande potência económica e um polo de atração global. Atraímos parceiros, países candidatos, moldamos normas e cooperamos sem recorrer à força. A UE trabalha com países que rejeitam esferas de influência e defendem a lei internacional", prosseguiu.

"Temos vindo a reforçar laços com o Canadá, com a Índia, o Brasil, o México, o Reino Unido, o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália, a Indonésia, a África do Sul, países do Golfo, Egito, Jordânia e tantos outros. Só no último ano tivemos cimeiras de alto nível com todos os BRICS, com exceção da Rússia", explicitou, falando também em reuniões com os países da Ásia Central, União Africana, América Latina e Caraíbas. 

Como terceiro "P", Costa sublinhou que o poder europeu assenta em dois pilares, a defesa e a competitividade. 

"Assim como fizemos em 2025 o ano da defesa, 2026 terá de ser o ano da competitividade europeia. Ambos são pilares cruciais da nossa soberania. Na defesa estabelecemos uma estratégia de prontidão até 2030, desenvolvemos capacidades militares prioritárias em conjunto e criámos instrumentos europeus para as podermos financiar. Na competitividade, é necessário agora completar o mercado único, reduzir burocracias, garantir energia acessível, apoiar a inovação e reduzir dependências estratégicas", argumentou.

Para António Costa, trata-se, afinal, de um roteiro que criará "mais e melhores empregos de qualidade, mais habitação acessível, melhores serviços públicos e mais justiça intergeracional". 

"Estes pilares fortalecem a nossa prosperidade, o nosso músculo geopolítico e a nossa autonomia estratégica. Sem eles, a Europa não poderá ser um autor autónomo nem um garante da estabilidade global", concluiu.