Nas autárquicas o PSD-M reforçou a votação onde não ganhou as eleições?
No calor de um congresso, as palavras esticam-se muitas vezes para lá do que os números depois consentem. E foi isso que aconteceu no sábado. A frase foi proferida por Miguel Albuquerque quando decorria sensivelmente 5 minutos do seu discurso e consubstanciava que - “nos concelhos onde não ganhamos, quero também dar-lhe os parabéns e um aplauso aos nossos candidatos, reforçamos a votação do PSD”. Ora, a declaração tem força política, mas não resiste, tal como foi dita, a uma verificação rigorosa dos resultados.
O critério mais correcto para testar a afirmação é simples, ou seja, comparar, em cada município onde o PSD não venceu em 2025, o resultado da candidatura social-democrata à Câmara com o resultado obtido na eleição autárquica anterior, em 2021, no mesmo concelho e no mesmo órgão. É essa a comparação que permite saber se houve, ou não, reforço de votação.
E logo aí aparece o primeiro problema. Não basta olhar para a percentagem. Também não basta olhar apenas para o número bruto de votos. Quando um líder diz que “reforçamos a votação” em todos eles, está a fazer uma afirmação extensiva, sem excepções. Basta um caso em sentido contrário para a frase cair. E há mais do que um.
Quando proferida a declaração o primeiro calafrio aconteceu na concelhia do Porto Moniz, já que o PSD/CDS-PP não reforçou a votação. Em 2021 teve 876 votos e 41,77%. Em 2025 ficou-se pelos 851 votos e 38,25%. Caiu em votos absolutos e caiu em percentagem. Aqui não há margem para interpretação benevolente porque a frase falha por inteiro, como se pode verificar no quadro anexo.
Machico é o concelho que mais facilmente pode induzir uma leitura apressada. A coligação PPD/PSD.CDS-PP sobe de 4.113 votos, em 2021, para 4.234, em 2025. Há, portanto, um aumento em votos absolutos. Só que a percentagem desce de 35,99% para 35,07%. Isto significa que, mesmo aqui, o “reforço” só pode ser defendido num sentido muito restrito, o do número bruto de votos, e já não no peso eleitoral da candidatura.
Em Santa Cruz, sim, há reforço claro. O PPD/PSD.CDS-PP sobe de 6.162 votos e 27,96% em 2021 para 8.029 votos e 35,26% em 2025. Aqui a frase confirma-se. Em Santana também há subida. O PPD/PSD passa de 1.269 votos e 27,12% para 1.287 votos e 28,82%. Reforço curto, mas efectivo.
Feitas as contas, o retrato final é este: dos municípios mostrados onde o PSD não venceu, há reforço claro em Santa Cruz e Santana; há um reforço apenas em votos absolutos, mas não em percentagem, em Machico; e há quebra inequívoca no Porto Moniz.
Por isso, não é verdade que o PSD tenha reforçado a votação em todos os municípios onde não venceu. Porto Moniz desmente a frase de forma explícita. São Vicente desmente-a ainda com mais violência estatística. E Machico só a salva parcialmente, se o conceito de “reforço” for reduzido ao número de votos e ignorar a percentagem.
A formulação politicamente mais exacta teria sido outra, por exemplo: em alguns concelhos onde não venceu, o PSD reforçou a votação; noutros, não. Tal como a frase foi dita, porém, os resultados não a sustentam.