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Papa critica na Guiné Equatorial "luxúria pelo poder" e colonização dos minerais

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Foto Lusa/EPA

O Papa Leão XIV denunciou hoje, na Guiné Equatorial, a colonização dos minerais africanos e a "luxúria pelo poder", num país cujo líder está no cargo desde 1979.

A ex-colónia espanhola na costa ocidental de África é governada pelo Presidente há mais tempo no cargo no continente, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, que tem sido acusado de corrupção generalizada e autoritarismo.

A descoberta de petróleo em águas profundas em meados da década de 1990 transformou a economia da Guiné Equatorial. O petróleo representa agora quase metade do seu Produto Interno Bruto (PIB) e mais de 90% das exportações, de acordo com o Banco Africano de Desenvolvimento.

No entanto, mais de metade dos quase dois milhões de habitantes vive na pobreza.

O Papa, que chegou de Angola, reuniu-se com Obiang no palácio presidencial e depois dirigiu-se a autoridades governamentais, diplomatas e representantes do serviço civil.

Observando que o encontro ocorreu no primeiro aniversário da morte do Papa Francisco, Leão XIV citou o falecido Papa ao denunciar as desigualdades económicas que, segundo ele, foram exacerbadas por uma economia global focada na busca pelo lucro a qualquer custo.

"Tal economia mata", disse o chefe da Igreja Católica.

"De facto, é ainda mais evidente hoje do que em anos passados que a proliferação de conflitos armados é frequentemente impulsionada pela colonização de depósitos de petróleo e minerais, ocorrendo sem qualquer respeito ao direito internacional ou à autodeterminação dos povos", criticou.

Segundo o Papa, todas as autoridades públicas devem "desmantelar os obstáculos" ao desenvolvimento sustentável e humano, disse.

As reuniões ocorreram no antigo palácio presidencial, pois o Governo construiu uma nova capital no continente, batizada de Cidade da Paz, mas a transferência dos edifícios governamentais ainda não foi concluída.

O Papa referiu-se à nova capital citando a famosa obra de Santo Agostinho, "Cidade de Deus", na qual o filósofo do século V interpretou a humanidade através de dois modelos: a "cidade terrena", onde as pessoas vivem temporariamente, e a eterna "cidade de Deus", caraterizada pelo amor incondicional de Deus e pelo amor uns pelos outros, especialmente pelos pobres.

Leão XIV não mencionou diretamente a corrupção associada à família Obiang ou as críticas à nova capital. No entanto, sugeriu que a Guiné Equatorial deveria olhar para a "Cidade de Deus" como um modelo para a sua nova capital.

"A cidade terrena está centrada no amor orgulhoso de si mesmo, na luxúria pelo poder e na glória mundana que leva à destruição", disse.

"É essencial discernir a diferença entre aquilo que dura e aquilo que passa, permanecendo livre da busca por riqueza injusta e da ilusão de domínio", prosseguiu.

A Guiné Equatorial é oficialmente um Estado laico, mas a Igreja Católica está no centro dos seus sistemas políticos e sociais desta nação onde estimativas indicam que pelo menos 80% da população é católica.

Este país foi um dos africanos que recebeu milhões de dólares em acordos controversos com o Governo de Trump para receber migrantes deportados dos Estados Unidos da América, para países que não são os seus de origem.

Por sua vez, o Papa, o primeiro de nacionalidade norte-americana na História, já criticou essa política de deportações. 

Leão XIV é o segundo Papa a visitar a Guiné Equatorial. O primeiro foi João Paulo II, há 44 anos, e cuja viagem é recordada no país pela mensagem de paz e reconciliação.

O país, membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), tem estado consistentemente entre os 10 últimos países no índice anual de perceção da corrupção da Transparência Internacional.