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Papa insiste que Deus não está do lado "dos prepotentes"

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FOTO LUCA ZENNARO/EPA

O Papa insistiu hoje que Deus, dilacerado pelas guerras, não está do lado dos prepotentes, numa declaração interpretada como uma nova crítica ao Presidente norte-americano e à guerra contra o Irão.

Leão XIV voltou a criticar os "prepotentes do mundo que decidem as guerras" no segundo dia da visita à Argélia, regressando a Annaba, a 550 quilómetros a leste de Argel, território onde Santo Agostinho foi bispo no século V, de acordo com a agência de notícias italiana Ansa.

Depois da resposta de segunda-feira a Donald Trump, na qual afirmou não temer um chefe de Estado que o qualificou como fraco e péssimo em política externa, Leão XIV reiterou que "o coração de Deus está dilacerado pelas guerras, pela violência, pela injustiça e pela mentira".

"Mas o coração do nosso Pai não está com os ímpios, com os prepotentes, com os soberbos: o coração de Deus está com os humildes e os simples, e com eles faz avançar o seu Reino de amor e de paz, dia após dia", afirmou, elogiando o trabalho desenvolvido no Lar de Idosos gerido pelas Irmãzinhas dos Pobres em Annaba.

Entretanto numa mensagem enviada aos participantes na Assembleia Plenária da Academia Pontifícia das Ciências Sociais sobre o uso do poder a nível global, Leão XIV defendeu que o conceito de poder legítimo encontra uma das expressões mais elevadas na democracia autêntica.

"Longe de ser um mero procedimento, a democracia reconhece a dignidade de cada pessoa", mas só é se mantém sólida quando assenta na lei moral e numa verdadeira visão da pessoa humana. 

"Sem esse fundamento, corre o risco de se transformar numa tirania da maioria ou numa máscara para a dominação das elites económicas e tecnológicas", sustentou.

A deslocação de Leão XIV assumiu um simbolismo pessoal para o Papa, antigo responsável mundial da Ordem de Santo Agostinho.

Leão XIV chegou ao aeroporto local durante a manhã (hora local), debaixo de chuva, sendo recebido pelo bispo de Constantina-Hipona, Nicolas Guillaud, e pelos ministros dos Negócios Estrangeiros e da Cultura argelinos.

O programa teve início no sítio arqueológico da cidade costeira, um complexo que preserva vestígios romanos e cristãos, como o fórum, o teatro, o mercado e as antigas termas.

O Papa percorreu as ruínas até à basílica da Paz, que assinala o local onde Santo Agostinho exerceu o ministério pastoral durante 34 anos e onde morreu, em 430, durante o cerco dos Vândalos.

No final do percurso arqueológico, Leão XIV depositou uma coroa de flores e recolheu-se num momento de oração silenciosa, acompanhado por um grupo coral do Instituto de Música de Annaba.

Plantou ainda uma oliveira, como símbolo de paz.

A importância do pensamento agostiniano já tinha sido evocada segunda-feira pelo Papa na visita à Grande Mesquita de Argel.

"Venho com grande alegria à Argélia, pois esta é também a terra do meu pai espiritual, Santo Agostinho, que desejou ensinar tanto ao mundo, sobretudo através da busca da verdade, da busca de Deus, reconhecendo a dignidade de cada ser humano e a importância de construir a paz", disse, numa intervenção improvisada.

A passagem de Leão XIV por Annaba termina com a celebração de uma missa na basílica de Santo Agostinho, regressando a Argel ao final da tarde.