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O "caçador de palavras" que escrevia para espantar a depressão

Foto Arquivo/LUSA/JOSÉ SENA GOULÃO
Foto Arquivo/LUSA/JOSÉ SENA GOULÃO

O escritor António Lobo Antunes, Prémio Camões 2007, que morreu hoje aos 83 anos, definia-se como "caçador de palavras", foi médico psiquiatra e escrevia romances para combater a depressão que afirmava existir em todas as pessoas.

A sua obra fala da solidão, da morte, do amor, da loucura e, invariavelmente, da guerra colonial, para a qual foi mobilizado em 1970, embarcando para Angola no ano seguinte, de onde regressou em 1973.

"A psiquiatria está presente nos meus romances, mas não só da maneira explícita como os críticos habitualmente observam", disse António Lobo Antunes ao jornal Estado de S. Paulo, em 1996. "Eles prendem-se aos aspetos temáticos, mas há uma influência ainda maior, que aparece na técnica. A formação em psiquiatria é uma aprendizagem técnica, um exercício de lucidez e rigor. Ela deu-me um raciocínio diferente, uma maneira particular e talvez mais aguda de encarar o mundo. [...] Além disso, a psiquiatria dá-nos um contacto intenso com o sofrimento e a morte. Isso enriqueceu-me e fez-me ver que poucas coisas realmente valem a pena nesta vida. Ela ajudou-me também a ver como relativos o sucesso e o insucesso. É claro que a literatura é importante, mas existem coisas muito mais importantes."

Em 2004, quando assinalava 25 anos de vida literária, em entrevista à agência Lusa, António Lobo Antunes disse que "nunca soube verdadeiramente fazer outra coisa que não escrever". Na altura publicava um novo romance, "Eu hei de amar uma pedra", e ia receber a grã-cruz da Ordem de Sant'Iago da Espada.

Um ano antes recebera o Prémio União Latina pelo conjunto da obra, e a lista de distinções já era longa, atravessava fronteiras, ia do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), ao Melhor Livro Estrangeiro publicado em França ("Manual dos Inquisidores") e ao reconhecimento pela Feira do Livro de Frankfurt (1997), na Alemanha.

António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, a 01 de setembro de 1942. A escolha do curso universitário "foi para dar prazer aos pais que entendiam que devia ter uma enxada", contou à Lusa. António Lobo Antunes licenciou-se em Medicina pela Universidade de Lisboa, em 1969, e especializou-se em Psiquiatria, depois do regresso de Angola.

O seu primeiro livro, "Memória de Elefante", foi publicado em 1979, logo seguido de "Os Cus de Judas", no mesmo ano, duas obras marcadas pela Guerra Colonial que dividiram opiniões da crítica da época. Se, para alguns, Lobo Antunes representava um ponto de viragem na literatura portuguesa, para outros, era um autor que não justificava especial atenção.

As obras seguintes, "Conhecimento do Inferno", de 1980, onde voltava à guerra, e "Explicação dos Pássaros", de 1981, também marcado pela prática da psiquiatria, da angústia e crueldade das personagens, confirmavam a perspetiva de algo novo estar a acontecer, o que foi reafirmado por "Fado Alexandrino", de 1983, e consagrado com a atribuição do Grande Prémio do Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), ao sexto título, "Auto dos Danados" (1985).

O público desde cedo demonstrara apreço pela obra, tornando-o um dos autores mais lidos de língua portuguesa, o que nem sempre facilitou a crítica da época nos momentos iniciais do seu percurso.

Depois, veio o reconhecimento no estrangeiro, com a edição dos seus romances em países europeus, como Espanha, França, Alemanha, Itália e Reino Unido, a que se juntaram os mercados livreiros do Brasil, Estados Unidos e Canadá.

Em 1987, o Prémio Literário Franco-Português foi atribuído à tradução francesa do romance "Os Cus de Judas". Foi o primeiro prémio de dimensão internacional que o escritor recebeu ao longo de 45 anos de carreira literária, distinguida em 2007 com o Prémio Camões, atribuído em conjunto por Portugal e Brasil.

Em 2004, em entrevista à Lusa, definiu-se como um "caçador de palavras", "uma arte difícil" de que se podem passar alguns ensinamentos, mas nunca o talento.

António Lobo Antunes exerceu Medicina no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, passando a partir de 1985 a dedicar-se à escrita, pois não tinha muito mais tempo para outras coisas. "Um escritor tem de escrever", sustentou, acrescentando: "Escrever é muito difícil" e "exige humildade".

Manteve, porém, uma rotina no hospital, durante mais de uma década, onde ia uma vez por semana, "para não ficar maluco", como disse ao Estado de S. Paulo, em 1996. "Escrever é um ato esquizofrénico, que se pratica sozinho, entre quatro paredes, sem testemunhas. É um ato enlouquecedor. [...] Em 1980, já percebia que não poderia conciliar as duas atividades. Fui abandonando lentamente a psiquiatria e só não a abandono de vez para conservar a sanidade."

Lobo Antunes disse à Lusa que não tinha rituais para escrever. Preferia fazê-lo no silêncio, pois "há uma atitude de paciência, ter de esperar que a palavra apareça". "As palavras vêm muito devagar, tenho de estar à espera [...]. Um pouco como atitude do caçador que espera a presa junto ao ribeiro."

Num discurso pleno de metáforas, o escritor disse que "há todo um trabalho inicial, como um jardineiro que prepara o jardim, tem de escavar e lá no fundo encontra um tesouro que é o livro. [...] Esse livro já existe em nós -- prosseguiu -- mas não é nosso". "Pertence a cada um que o lê" e "tem uma respiração própria".

O processo de escrita de Lobo Antunes era minucioso e aturado, e o seu ritmo de escrita irregular. "Há dias que são horríveis e escrevo pouco, outros são ótimos, onde as palavras surgem em torrente e escrevo páginas", disse à Lusa.

Escrevia sempre à mão e terminado o livro não voltava a ele, nem para o ler. Escrevia tantas vezes "quantas o capítulo" o exigia. Quando começava a escrever não sabia ainda se iria dar um livro, algo que surgia posteriormente, tal como a escolha do título.

Quando escrevia, apenas se preocupava com o livro. "Não penso em mais nada, nem em nenhuma ideologia" e afirmou-se surpreendido quando lhe citam referências na sua obra "a esta ou aquela situação". "Francamente, naquela altura estava concentrado só no livro, preocupado com ele, e não pensava em mais nada".

Para Lobo Antunes, os seus livros "têm vida própria e falam por si, são de cada um que os lê", disse à Lusa. O autor contrariava a visão de que em Portugal não se lê, mas criticava o facto de "os livros, serem caros comparativamente a outros países europeus". Por isso, afirmava-se grato a quem o comprava, quer pelo esforço que isso significa em termos de orçamento, quer pela disponibilidade. "É incrível depois de uma 'lufa-lufa' de vida terem ainda tempo para me ler".

Todos esses leitores "são amigos" que os livros lhe trouxeram, amigos com os quais conversava nas feiras do livro e nas sessões de autógrafos e através das muitas cartas que recebeu, revelando uma faceta afável, menos conhecida do escritor que por vezes se irava.

Ao longo dos anos, a sua obra, que se encontra publicada em dezenas de países, foi objeto dos mais diversos estudos, muitos deles académicos, muitos outros de investigação, alguns para lá da abordagem literária, abrindo também portas no campo da psicoterapia e da psicanálise, em particular.

A "Fado Alexandrino" (1983) e "Auto dos danados" (1985) sucedeu-se "As naus", em 1988. Vieram depois "Tratado das paixões da alma" (1990), "A ordem natural das coisas" (1992), "A morte de Carlos Gardel" (1994), "Manual dos inquisidores" (1996) e "O esplendor de Portugal" (1997). Lobo Antunes combina geografias pessoais com a desmontagem da versão falsa e heróica da História.

"Exortação aos crocodilos" (1999) dá-lhe pela segunda vez o Grande Prémio de Romance da APE. "Não entres tão depressa nessa noite escura" (2000), "Que farei quando tudo arde?" (2001), "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo" (2003) e "Eu hei-de amar uma pedra" (2004) acentuaram a renovação da linguagem, como a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas destaca, na página dedicada ao autor.

Numa bibliografia com perto de três dezenas de romances, cerca de metade surgiu nos últimos 20 anos: "Ontem não te vi em Babilónia" (2006), "O meu nome é Legião" (2007), "O arquipélago da insónia" (2008), "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?" (2009), "Sôbolos rios que vão" (2010), "Comissão das lágrimas" (2011), "Não é meia noite quem quer" (2012), "Caminho como uma casa em chamas" (2014), "Da natureza dos deuses" (2015), "Para aquela que está sentada no escuro à minha espera" (2016), "Até que as pedras se tornem mais leves que a água" (2017), "A última porta antes da noite" (2018), "A outra margem do mar" (2019), "Diccionario da linguagem das flores" (2020), "O tamanho do mundo" (2022).

Pelo meio, surgiram vários volumes de "Livro de crónicas" e ainda o livro para crianças "A história do hidroavião" (1994), ilustrado pelo músico e amigo Vitorino. A correspondência de guerra, organizada por Maria José e Joana Lobo Antunes, deu origem a "D'este viver aqui neste papel descripto" (2005), que esteve na base do filme de Ivo M. Ferreira "Cartas da guerra" (2016).

Regularmente indicado como um dos mais prováveis vencedores portugueses do Nobel da Literatura, António Lobo Antunes acumulou prémios com a obra e como autor, pelo percurso literário.

Em Portugal, duas vezes distinguido com o Grande Prémio de Romance e Novela da APE, recebeu também o Prémio D. Diniz da Fundação Casa de Mateus ("Exortação aos crocodilos", 1999), o Prémio Fernando Namora ("Boa tarde às coisas aqui em baixo", em 2004), o Prémio Alberto Pimenta de carreira, do Clube Literário do Porto (2008), o Prémio Autores ("Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar", 2010), o Prémio Literário Fundação Inês de Castro ("O tamanho do mundo", 2023).

Em França teve o Prix France Culture de Littérature Étrangère em 1996 por "A morte de Carlos Gardel", e o Prémio de Melhor Livro Estrangeiro, por "Manual dos Inquisidores", em 1997, romance também distinguido em Frankfurt, na Alemanha, como melhor obra traduzida, no mesmo ano.

Na Áustria, onde foi "convidado de honra" do Festival de Música de Salzburgo, recebeu em 2000 o Prémio de Literatura Europeia do Estado Austríaco. Em Espanha, teve os prémios Rosalía de Castro, em 2001, Terence Moix, em 2008, e o da Extremadura para a Criação, em 2009.

Em Itália, recebeu o Prémio Internacional União Latina, em 2003, o Nonino, em 2014, e o Prémio Bottari Lattes Grinzane, em 2018, enquanto na Roménia teve o Prémio Ovídio, em 2003.

O Estado de Israel entregou-lhe o Prémio Jerusalém, em 2004. No Chile recebeu, em 2006, o Prémio Iberoamericano José Donoso. O México deu-lhe o Prémio da Feira do Livro de Guadalajara (Juan Rulfo), em 2008.

A República Portuguesa condecorou-o com a Ordem da Liberdade, em 2019, 15 anos depois do Grande Colar da Ordem de Sant'Iago da Espada. França deu-lhe o grau de Comendador da Ordem das Artes e Letras, em 2008.

Várias universidades concederam-lhe o doutoramento 'honoris causa', como a Universidade Nacional Mayor de San Marcos, de Lima, Peru, em 2022, a Universidade de Constança, na Roménia, e as portuguesas de Trás-os-Montes e Alto Douro e de Lisboa, em 2011.

O seu mais recente livro, "Crónicas II", chegou às livrarias em 24 de outubro do ano passado, com prefácio do psiquiatra Daniel Sampaio, que considera as 187 crónicas "reunidas neste volume uma demonstração clara da sua [Lobo Antunes] criatividade e da capacidade de falar dos temas do quotidiano ao leitor comum", definindo "uma extraordinária galeria de personagens inesquecíveis", como todas as personagens do escritor.

Lobo Antunes disse à Lusa ser favorável a que os livros não incluíssem o nome do autor na capa, mas sim o do leitor, por serem estes que o fazem, com a sua leitura. E para detetar um bom livro, explicou, basta ter em conta os que causam insónias, os que atraem a atenção e começam a "brilhar na obscuridade", quando alguém se levanta a meio da noite e passa perto deles. Estes são os melhores, garantiu.