Nunca se cancelaram tantos voos em dois dias na Madeira?
O mais recente episódio de vento intenso no Aeroporto Internacional da Madeira – Cristiano Ronaldo levou ao cancelamento de 176 voos em apenas dois dias – segunda e terça-feira -, um número que suscitou várias perguntas entre passageiros e cidadãos em geral: terá sido este o maior episódio de cancelamentos meteorológicos registado na história recente do aeroporto, ou já se verificaram situações ainda mais graves?
O recente episódio de 176 cancelamentos em apenas dois dias - anteontem e ontem - no Aeroporto Internacional da Madeira – Cristiano Ronaldo suscitou dúvidas sobre a dimensão do impacto. Terá sido realmente sem precedentes? Uma análise detalhada dos registos noticiosos da última década permite colocar este evento no contexto histórico dos principais constrangimentos meteorológicos no aeroporto, sobretudo relacionados com ventos fortes e depressões atmosféricas.
No início desta semana ventosa, durante a passagem da depressão Regina, o aeroporto registou 84 voos cancelados num único dia de 97 programados, incluindo toda a operação da TAP Air Portugal. Apenas meia dúzia de aeronaves conseguiu aterrar durante a manhã, evidenciando a severidade das condições. A rota Lisboa–Funchal foi a mais afectada: dos 22 movimentos previstos pelas três companhias — TAP, easyJet e Ryanair — apenas dois voos da easyJet Europe se realizaram. Vários aviões tiveram de desviar para aeroportos alternativos, como Porto Santo ou ilhas Canárias, enquanto outros regressaram à origem. Entre 2 e 3 de Março de 2026, contabilizaram-se 176 cancelamentos acumulados em dois dias, afectando aproximadamente 35 mil passageiros, causando atrasos, desvios e congestionamento logístico na ilha.
84 voos cancelados
176 movimentos anulados em dois dias devido ao vento forte
Orlando Drumond , 03 Março 2026 - 19:44
Apesar do impacto recente, este episódio não é o mais extremo da última década. Em Dezembro de 2025, a depressão Emília provocou o maior constrangimento registado no aeroporto. Na sexta-feira anterior ao Natal, 76 dos 80 voos programados foram cancelados, e no sábado seguinte, dos 130 voos previstos, 128 não se realizaram, totalizando 185 cancelamentos acumulados em dois dias e afectando cerca de 40 mil passageiros. Rajadas superiores a 100 km/h e vento médio acima de 60 km/h condicionaram a operação. Apenas dois movimentos foram realizados nesse sábado: o voo Ryanair entre a Madeira e Dublin, que acabou por levantar voo ao final do dia. Este episódio demonstra que já houve casos com números superiores aos recentes 176 movimentos.
Outros episódios significativos mostram que, embora raros, cancelamentos massivos são recorrentes. Em 25 de Março de 2024, o aeroporto registou 37 voos cancelados num único dia devido a ventos fortes. Em 9 de Maio de 2023, aproximadamente 46 cancelamentos acumulados em dois dias ocorreram num episódio de vento intenso, afectando operações e passageiros ao longo de toda a manhã e tarde. Em 15 de Março de 2022, durante a depressão Célia, foram contabilizados 42 cancelamentos num único dia, principalmente nas ligações Lisboa–Funchal e Porto–Funchal. Já em 7 de Janeiro de 2021, 10 voos foram anulados devido ao vento forte, afectando sobretudo partidas e chegadas da TAP Air Portugal e Ryanair.
Nos anos anteriores, registos mostram que o aeroporto enfrentou condições adversas mais limitadas em termos de cancelamentos: em 2019, o dia com maior número de voos cancelados por mau tempo foi 5 de Dezembro, com apenas 8 voos anulados; em 2018, 3 de Março registou 58 cancelamentos; e em 2017, durante o período de 6 e 7 de Agosto, houve mais de 100 cancelamentos acumulados ao longo do fim-de-semana devido a vento intenso. O ano de 2020 foi atípico: a pandemia de Covid‑19 alterou drasticamente a operação aérea, provocando cancelamentos massivos, mas grande parte não esteve relacionada com condições meteorológicas.
Os números demonstram que episódios de cancelamentos em dois dias consecutivos com mais de 100 voos anulados não são inéditos, embora sejam raros e excepcionais. O recente registo de 176 cancelamentos é elevado e significativo, mas ainda assim inferior aos 185 cancelamentos registados em Dezembro de 2025 durante a depressão Emília, que continua a ser o maior episódio da última década. As rotas mais afectadas historicamente foram Lisboa–Funchal e Porto–Funchal, seguidas de algumas ligações internacionais, com milhares de passageiros afectados em cada episódio, aeronaves divergidas e operações suspensas durante horas.
A análise mostra também que, em cada episódio de vento intenso ou depressão, os principais factores que condicionam os cancelamentos são rajadas (muito) acima dos limites operacionais, que na maioria dos eventos chegam a ser superiores a 100 km/h, vento médio elevado e fraca visibilidade, tornando a operação aérea no aeroporto da Madeira particularmente vulnerável a fenómenos meteorológicos extremos. Apesar da modernização e protocolos de segurança, estes factores continuam a provocar interrupções significativas, especialmente durante o Inverno e períodos de passagem de depressões atlânticas.