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Crónicas

“Mulher ao volante, perigo constante” agora pode dar prisão

Há frases que atravessam décadas vincadas pela expressão popular seja em forma de brincadeira, desafio ou piropo, com a leveza de quem nunca suspeitou vir a prestar contas ao futuro. Eu próprio as uso de quando em vez sem que daí se possa retirar qualquer conotação negativa. Palavras gastas pelo uso, herdadas de um tempo em que quase tudo se dizia sem grande filtro e em que certas tiradas já vinham na manga como se estivessem prontas para qualquer ocasião. “Mulher ao volante, perigo constante” pertence a essa família de frases que sobreviveram mais por hábito do que por convicção, mais em tom de picardia do que assente em qualquer estatística e que por serem repetidas tantas vezes acabaram por envelhecer antes de serem verdadeiramente discutidas.

No entanto, temos assistido nos últimos tempos, a uma perseguição sem limites a quem muitas vezes apenas por hábito ou pelo uso outrora normalizado, se recorre de algumas tiradas feitas, sem qualquer maldade ou segundas intenções tornando cada vez mais estreito o caminho do que se pode ou não dizer. Talvez por isso não surpreenda que, em Março deste ano, o Senado Brasileiro tenha aprovado um projeto de lei que admite punição criminal para expressões consideradas discriminatórias no que concerne ao género. O curioso não está apenas na medida em si, mas no modo como se quer criminalizar disciplinando o que antes se resolvia socialmente.

A linguagem, que durante séculos foi sobretudo limiar do excesso, passou a exigir hoje um cuidado quase administrativo. Naturalmente, há algumas razões para isso. Muitas frases transportam visões antigas, preconceitos discretamente instalados e desigualdades que sobreviveram mais tempo do que seria desejável. O problema começa quando a fronteira entre corrigir e vigiar se torna suficientemente ténue para que qualquer frase mal calibrada pareça já um pequeno processo em aberto.

No Brasil, onde o debate público raramente conhece meio termo, esta tendência ganhou nos últimos anos uma intensidade própria. A palavra deixou de ser apenas um veículo de opinião para se transformar também em prova de carácter, às vezes de forma instantânea, quase sem direito a contexto ou hesitação. O chamado cancelamento, esse mecanismo moderno onde o tribunal funciona na praça pública e sem necessidade de convocatória formal, talvez seja apenas o reflexo mais visível dessa nova ansiedade moral. Não se trata já apenas de discordar, trata-se de corrigir publicamente, muitas vezes antes de perguntar se houve intenção ou ignorância.

Nunca se falou tanto em liberdade individual, em pluralidade, em diversidade e no entanto cresce em simultâneo uma vigilância sobre a forma exata como cada frase deve nascer, circular e terminar. Polícias dos bons costumes. Como se o erro deixasse imediatamente de ser erro para se aproximar de um sinal de insuficiência ética. Entende-se a necessidade de rever hábitos antigos. O que talvez mereça igual atenção é a velocidade com que se procura substituir pedagogia por sanção, ironia por literalismo ou contexto por cancelamento.

Porque há uma diferença subtil entre educar uma sociedade e obrigá-la a falar com receio e isto começa a chegar ao ridículo. O que seria hoje em dia do grande Jo Soares e o seu “samba do crioulo doido”, reputado humorista que mais brincou com tudo e todos a começar pelo próprio com o programa “Viva o Gordo”? Seria com toda a certeza cancelado e julgado. Até onde querem chegar?

Frases soltas:

Este fim de semana, os jogadores e equipa técnica de andebol do Sporting, queixaram-se de um odor intenso no balneário que levou inclusive dois elementos a serem assistidos no hospital. Já no jogo de futebol entre as duas equipas, práticas antigas (e condenáveis) mancharam o espetáculo. Não basta prometer um mundo diferente com palavras bonitas, é preciso estar à altura quando chega o momento das colocar em prática.

O Comité Olímpico decidiu recuperar os testes genéticos e excluir os atletas transgénero de participar na categoria feminina. Parece-me tão evidente e lógico como ter a noção de que homem e mulher são seres diferentes e que só assim se protege a equidade e a integridade das competições.