Estará Miguel Albuquerque habituado a concorrer sozinho à liderança do PSD?
Eleições no PSD suscitam reacções apaixonadas. Este trabalho surge na sequência da notícia desta sexta-feira, 6 de Fevereiro, em que Miguel Albuquerque, presidente do Governo Regional e líder do PSD-Madeira, afirmou: “Espero não ter adversários”, referindo-se às eleições internas do partido previstas para Março. A declaração desencadeou reacções nas plataformas on-line e redes sociais do DIÁRIO, incluindo o comentário “Outra vez?”, aqui reformulado como ‘Albuquerque candidata-se “outra vez” sem adversários”.
O comentário contém duas ideias: que Albuquerque está ‘habituado’ a concorrer sozinho; que, nesta recandidatura, volta a não ter adversários. A verificação tem, por isso, de separar o histórico comprovável (o que já aconteceu) de uma expectativa.
A verificação fundamentou-se na pesquisa de notícias e comunicados (imprensa regional e peças Lusa reproduzidas por vários órgãos) sobre eleições directas do PSD-Madeira, identificando, por ano, se Albuquerque concorreu em lista única, como único candidato, ou se enfrentou adversários, e recolhendo declarações públicas do próprio sobre competição interna e “unanimismo”.
Do ponto de vista documental, Miguel Albuquerque tem, de facto, um historial relevante de candidaturas sem oposição, sobretudo após se afirmar como líder. Em 2018, é descrito como único candidato à liderança do PSD-Madeira. Em 2020, também concorreu como único candidato (lista única) nas directas regionais. Em 2022, volta a ser enquadrado como líder em lista única, sem adversários nas internas. Este padrão não é um episódio isolado: é um ciclo repetido, suficiente para sustentar a percepção pública de que, com frequência, Albuquerque concorre sem concorrência interna.
Contudo, é igualmente documental que ele não concorreu sempre sozinho e, sobretudo, que existiram corridas disputadas com grande visibilidade. Em 2014, a sucessão interna a Alberto João Jardim, teve forte competição: houve seis candidatos na primeira volta e segunda volta entre Miguel Albuquerque e Manuel António Correia (que Albuquerque venceu). E, mais decisivo para avaliar o “outra vez”, em 21 de Março de 2024 a liderança voltou a ser disputada: Albuquerque foi reeleito nas directas contra Manuel António Correia. Assim, o histórico recente contradiz a leitura de que ele concorre “sempre” ou “agora como antes” sem adversários.
Quanto ao discurso, há diferenças claras, também documentais, entre o modo como Albuquerque fala quando existe disputa e quando concorre sozinho. Em cenário de candidatura única, Albuquerque procurou afastar a ideia de unanimidade forçada: em 2016, numa entrevista antes das directas em que concorria sem opositor, afirmou que o partido estava “pacificado”, mas que isso “não é sinónimo de unanimismo”. Em 2018, já como único candidato, afirmou que “um candidato só” podia ser sinal de que o partido continuava “dinâmico, vivo”. Ou seja, quando está sozinho, tende a normalizar a ausência de adversários e a enquadrá-la como unidade, estabilidade, não como défice democrático.
Em cenário de disputa, o tom muda: em Fevereiro de 2024 (antes das directas desse ano, que acabaram por ter adversário), Albuquerque afirmou que “se houver uma disputa dentro do partido, eu acho que é positivo”. E, de forma coerente com esse quadro, 2024 confirmou a existência de concorrência real.
O padrão sugere que Albuquerque adapta a mensagem ao contexto: quando há concorrência, apresenta-a como positiva, normal. Quando não há, descreve-a como pacificação e sinal de vitalidade, rejeitando a etiqueta de “unanimismo”. Esta inferência não pretende fixar uma doutrina permanente, descreve apenas o comportamento discursivo observável.
Pelo exposto, o comentário ‘Albuquerque candidata-se “outra vez” sem adversários’ é impreciso. É compreensível porque existe um conjunto de anos em que concorreu repetidamente sem oposição (2018, 2020, 2022), mas falha por ignorar que a eleição interna mais recente antes de 2026 (2024) foi disputada. Além disso, ainda é possível, se bem que pouco provável, que surja algum adversário interno às eleições de Março.