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Carta aberta a Miguel Albuquerque e Élvio Sousa

Caro Miguel e Caro Élvio, Escrevo-vos esta carta porque, apesar das profundas diferenças políticas que temos, acredito que ainda é possível, e necessário, um apelo à vossa consciência democrática.

Quando, nesta segunda volta das eleições presidenciais, dois líderes políticos se recusam a manifestar apoio a qualquer candidato, não estão a ficar fora da decisão. Estão a tomar partido. Porque, nesta eleição concreta, com tudo o que está em causa, não escolher é escolher. E a escolha, neste caso, chama-se André Ventura. Tenho de vos dizer com toda a frontalidade, mesmo que gostem, que quando líderes políticos se calam num momento destes, não ficam “acima da disputa”. Ao não manifestarem apoio a António José Seguro estão a facilitar o caminho a André Ventura. E isso é perigoso. A História mostra-nos que a extrema-direita cresce à boleia da hesitação dos democratas. E quando a democracia é posta à prova, ficar em cima do muro não é prudência, é uma opção quase sempre a favor de quem mais ameaça o sistema democrático.

Tudo isto é também perigoso para os vossos próprios Partidos. Se acham que podem usar este populismo de extrema-direita como instrumento tático, lamento informar-vos, mas acabarão por ser engolidos por aqueles que estão a proteger com o vosso silêncio. O Chega nunca quererá ser parceiro, quer substituir, quer ocupar todo o espaço que puder, particularmente à direita do PS, tornando irrelevantes aqueles que acreditam que os podem controlar. Quem não percebe isto agora, arrisca-se a percebê-lo tarde demais. Não vos digo isto como vosso amigo, que não sou, digo-vos como quem vos vê como democratas.

Por tudo isto, peço-vos que não vejam esta eleição como igual a outras. Não é uma escolha entre dois perfis de candidatos. É uma escolha entre dois caminhos opostos. Um caminho da estabilidade democrática, do respeito institucional, do respeito das regras e da confiança no Estado de Direito. O outro vive da erosão dessas mesmas regras, da suspeita permanente sobre as instituições e da normalização do que nunca deveria ser normal.

Caríssimos Miguel e Élvio, não podem com o vosso silêncio, fingir que António José Seguro e André Ventura são apenas “dois candidatos” ou que se equivalem. Não são nada iguais. Seguro é um democrata com provas dadas, que acredita na mudança dentro das instituições, com direitos, com garantias, com respeito pela Constituição.

André Ventura representa a política do choque, da provocação permanente, da mentira repetida até parecer verdade, do medo usado como instrumento. Ventura diz que quer destruir o sistema. Não quer. Vive dele. Basta ver que se candidata a todos lugares do “sistema”. Mas mais, explora as suas fragilidades, amplifica o seu pior lado e transforma isso em espetáculo político. A sucessão de casos envolvendo dirigentes, militantes e eleitos do Chega não é acidental. É reveladora. Revela uma prática que contradiz o discurso e um projeto que não fortalece a democracia, corrói-a.

E depois há a Madeira. A nossa Autonomia.

Caro Miguel e Élvio,

Não foram poucas as vezes que vos vi reclamarem-se como Autonomistas, e como quero acreditar que o são, então não podem ficar calados quando está em causa apoiar quem melhor defende a Autonomia. António José Seguro é um Autonomista por convicção e não por oportunismo. Acredita que a Autonomia não é um ponto de chegada, é um caminho que deve ser aprofundado. Seguro não quer deitar abaixo a Constituição nem substituir o pacto democrático por uma Constituição à medida de uma vontade pessoal, como defende André Ventura. Pelo contrário, vê na Constituição a base sólida da nossa democracia, aquela que garantiu direitos, liberdades e a própria Autonomia. E é precisamente por respeitar esse quadro constitucional que António José Seguro pode, com serenidade, promover uma revisão cirúrgica, feita com cuidado e consenso, para rever o que não funciona na Autonomia, num ano em que celebramos 50 anos desse percurso histórico.

Caro Miguel, lembro-lhe que foi António José Seguro, o primeiro a falar claro sobre o subsídio de mobilidade. Fê-lo cedo, ainda na primeira volta, quando outros optaram por esperar. Fê-lo porque entende a Autonomia como parte integrante da democracia portuguesa e não como um detalhe periférico.

André Ventura, pelo contrário, mostra todos os dias que a Autonomia só lhe serve quando convém. Não pode ser Autonomista quem não respeita sequer a autonomia do próprio Chega Madeira. Quem impõe decisões a partir de Lisboa contra a vontade expressa da estrutura regional revela uma visão centralista, autoritária e profundamente desconfiável para quem vive numa Região Autónoma.

É por isso que o vosso silêncio pesa tanto.

Hoje, apoiar António José Seguro não é um gesto partidário. É um ato de defesa da democracia, da Autonomia e do futuro. E quando tudo isto está em causa, ficar calado não é ficar de fora. É escolher o pior lado. Ainda vão a tempo de mudar.

Melhores cumprimentos democráticos,

Paulo Cafôfo