Kristin: o céu cai, o chão responde

Tenho 20 anos. Não me lembro de nada assim no meu país. Há sete anos, isto parecia coisa de climas tropicais, não de um Portugal temperado mediterrânico como ouvia nas aulas de Geografia. Hoje, depois de uma tempestade como a Kristin, percebemos que há um erro confortável em achar que o extraordinário é sempre passageiro. O problema não é apenas perder uma casa. É perder a ideia de que o futuro é estável. E é descobrir, tarde, que aquilo que durante décadas associámos a outras latitudes já não fica “longe”.

Não vale a pena repetir o que todos viram. O que importa é a leitura política do episódio: isto não foi apenas “mau tempo”; foi um aviso sobre vulnerabilidade. E a vulnerabilidade não está só no céu: está no território que desenhámos, impermeabilizámos e expusemos ao risco.

É aqui que o debate costuma falhar. Olhamos para o que cai do céu e esquecemos o que fazemos em terra. Quando a água não infiltra, corre. A selagem do solo – por asfalto, betão, plataformas, acessos – transforma a chuva intensa em escoamento rápido e violento. Encostas expostas e linhas de água estranguladas amplificam cheias, inundações e a erosão. E, com o vento, o terreno saturado fragiliza a sustentação das árvores: caem com mais facilidade – e com elas caem postes, telhados, vidas.

Por isso, falar de adaptação climática sem falar de solo é falar do sintoma e calar a causa. A União Europeia aprovou recentemente a Directiva (UE) 2025/2360, sobre monitorização e resiliência do solo – um reconhecimento tardio de que o solo é infra estrutura de segurança, água e alimentação. Medir é necessário. Mas medir não chega quando o território é governado por incoerências: quando se diagnostica a fragilidade e, ao mesmo tempo, se adiam as decisões que a reduziram ontem e a reduzem amanhã.

Em Portugal, a própria Lei de Bases do Clima tornou obrigatórios os Planos Municipais de Acção Climática, com prazo até 1 de Fevereiro de 2024. Ainda assim, em meados de 2025, mais de metade dos municípios continuava sem plano em vigor. Sem esses instrumentos, a resposta fica presa ao improviso: não há prioridades públicas sobre drenagem, bacias de retenção, renaturalização de margens, gestão de combustíveis, arborização urbana, protecção de encostas, nem transparência sobre como cada concelho reduz risco antes de ele chegar.

E, ao mesmo tempo, alterações recentes ao RJIGT – a chamada “lei dos solos” – abriram regimes excepcionais de reclassificação e construção, com efeitos no padrão de ocupação do território. Num país que aprende, a custo, o preço do risco, esta tensão deveria incomodar-nos: não se reforça resiliência com políticas que empurram pressão urbanística para onde devíamos estar a reduzir exposição.

Este não é um apelo a encontrar um culpado. É um apelo a assumir responsabilidades. Há quem legisle, quem planeie, quem licencie, quem fiscalize – e há quem viva com as consequências dessas decisões. A Lei de Bases do Clima não deixa isto no ar: reconhece o direito de participação e exige transparência e participação activa nas decisões climáticas. Se isso vale no papel, tem de valer no território, onde se decide drenagem, ocupação de zonas de risco, protecção de encostas, arborização e prevenção.

Para quem tem 20 anos, isto não é uma nota de rodapé democrática. É a diferença entre herdar um país habitável e herdar um país em permanente reparação.

A Kristin não foi um “azar”. Foi um aviso. E um aviso só serve se mudar o que vem a seguir: menos remendos, mais prevenção; menos improviso, mais território governado. Prevenir é preciso – e começa, literalmente, no chão.

Afonso Soares