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Crónicas

Movimento Anti-Valentines

Não, esta não é uma crónica contra o romantismo nem tão pouco este movimento cada vez mais globalizado o pretende ser. A verdade é que ano após ano, vamos assistindo a um desfilar de ementas e decorações alusivas ao tema em restaurantes e hotéis, pétalas de rosa e presentes especiais em floristas e lojas tornando um sentimento que deveria ser especial numa autêntica feira kitsch, servindo apenas para marcar o ponto em relacionamentos gastos ou mal cuidados em que se usa esta festividade ou este dia para de alguma forma compensar o que não se faz no resto do ano. O amor devia ser celebrado todos os dias, nas mais pequenas coisas, com intencionalidade, leveza e espontaneidade, é tudo menos algo que possa ser só por ser, que possa ser arrumado num dia ou que seja embrulhado com um laço piroso. É aliás, precisamente o contrário, constrói-se no pormenor, qual filigrana e percorre-nos num formato genuíno e pouco programado.

Voltando a este dia, confesso que me mete confusão ver os restaurantes cheios de casais que nem olham um para o outro, que passam o jantar inteiro agarrados ao telemóvel ansiosamente à espera que o tempo passe, que aquele sufoco obrigatório termine. Estão ali como se estivessem na fila do autocarro, enfadados, cansados e entediados. Sobra pouco ou nada. E o que este movimento que se vai espalhando um pouco por todo o lado tenta contrariar, é precisamente o romance forçado e a excessiva comercialização do mesmo. No fundo é o defender o foco no amor-próprio, na amizade mas também no que é o sentimento verdadeiro, fugindo à pressão social e aos roteiros programados que construíram durante muitos anos uma narrativa de que se todos os outros dias falharem, pelo menos neste veste-se a pele de relacionamento bem sucedido, tiram-se umas fotografias e mostra-se aos outros que tudo vai bem lá por casa. E a verdade é que em muitos casos todos sabemos que não vai, que as coisas não estão bem, que há amantes e traições pelo meio, que já não e aguentam um ao outro e que só se está ali para parecer bem.

E eu sinceramente não consigo dar para esse peditório. O do fingimento, da mentira ou do faz de conta. Tempos houve em que não era fácil sair desse espartilho, nos dias que correm ele não faz mais sentido. A cumplicidade e a beleza de uma relação transmite-se através da atenção que se dá todos os dias. Nos pequenos momentos em que nos lembramos de alguém e queremos demonstrar só porque sim, na vontade de estar e de abraçar, no sentido de um beijo sentido, na força do que vem de dentro e se nota ao longe. Não é algo que saia num pacote de batatas fritas. Talvez por isso cada vez mais pessoas que o sentem e que o vivem, escolham todos os dias menos este para o demonstrar. Porque fica sempre a sensação de que estão a ser incluídos na mesma definição ou porque simplesmente o fazem recorrentemente e não precisam que alguém ou algum dia os lembre de que existem um para o outro. Estão porque querem, porque gostam, quando querem e sentem-se bem ao fugir deste catálogo.

É por isso cada vez mais comum ver os verdadeiros a ficarem em casa ou a celebrarem de forma discreta e simples, como se de mais um dia se tratasse. Sem a necessidade de o mostrar ao mundo ou sequer de o justificarem à pessoa de quem gostam. De uma forma natural. Este é também um dia cada vez mais aproveitado por outros espaços para promover um Tinder presencial onde quem vai já sabe que é solteiro ou está à procura de alguma coisa. Sinceramente de uma forma ou de outra está tudo errado quando se confundem estes acontecimentos com amor. Amor é outra coisa.

Frases soltas:

Continua a saga José Sócrates numa série que leva já diversas temporadas. Agora parece que se está a descobrir mais um caso de ação recorrente, com personagens semelhantes e métodos anteriormente usados. É cansativo de ver a forma como um antigo Primeiro Ministro continua a levar o nome de toda a classe política para a lama. Não admira depois que cada vez mais gente se sinta tentada a defender movimentos que se definem como anti-sistema. Não há ninguém que meta fim a isto?

Estamos todos fartos da chuva e do mau tempo. Têm sido meses verdadeiramente angustiantes com alguns episódios trágicos pelo meio. Que venha depressa o sol e se instale de vez no país porque as pessoas com bom tempo tornam-se mais risonhas e de bem com a vida mas que não se esqueça quem perdeu muito do que tinha para que rapidamente os passamos ajudar a reconstruir.