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Explicador Madeira

A origem da sereia dos navios

No dia 4 de fevereiro, uma notícia do DIÁRIO deu conta de que a sereia prolongada de um navio surpreendeu quem circulava na baixa do Funchal naquela manhã.

A buzina do navio-cruzeiro Mein Schiff Relax soou de forma contínua durante cerca de cinco minutos, levantando dúvidas sobre a sua origem e o motivo do sinal prolongado.

Buzina prolongada de navio surpreende quem circula na baixa do Funchal

Um episódio pouco habitual despertou, na manhã desta quarta-feira, a atenção de quem passeava ou trabalhava na baixa do Funchal. A buzina de um dos navios atracados no porto fez-se ouvir de forma contínua durante cerca de cinco minutos, sem que houvesse, aparentemente, qualquer motivo associado a manobras ou situações de emergência.

Após ouvir os esclarecimentos da Capitania do Porto do Funchal, ficou claro que o som prolongado fazia parte de um exercício técnico relacionado com a buzina, o que na linguagem marítima se chama sereia.

Mas por que motivo é este o nome usado? Na rúbrica ‘Explicador’ de hoje detalhamos a origem e o significado desta palavra no contexto náutico.

O que é a sereia de um navio

A sereia a que se refere a notícia é, na realidade, o termo náutico para a buzina ou sinal sonoro de um navio. Em embarcações de grande porte, como os navios de cruzeiro, cargueiros ou navios militares, existe um aparelho que emite sinais audíveis de grande potência para comunicar intenções de manobra, alertar para presença em condições de pouca visibilidade ou simplesmente fazer soar um aviso regulamentar. Em inglês fala-se de ‘ship’s horn’ ou ‘whistle’, mas em português e em muitos portos lusófonos tradicionalmente chama-se “sereia” ao aparelho ou ao sinal sonoro produzido.

A origem do termo: da mitologia à tecnologia

A palavra sereia tem raízes longínquas. Na mitologia grega, as sirenas eram criaturas marinhas, descritas como seres com uma voz encantadora que atraíam os navegadores para a costa ou para perigos ocultos através de um canto irresistível. Esta imagem lendária ficou associada a sons que chamam intensamente a atenção no meio do ambiente marinho.

Quando no início do século XIX começaram a surgir dispositivos mecânicos capazes de produzir sons fortes e penetrantes, como os primeiros aparelhos chamados ‘sirènes’, inventados por Charles Cagniard de la Tour em 1819, os engenheiros recorreram à analogia com estas criaturas mitológicas justamente por causa da emissão intensa de som. A palavra sirène (em francês) ou siren (em inglês) passou a identificar instrumentos capazes de gerar som de aviso, primeiro em navios, depois em alarmes urbanos e sinais de emergência.

Assim, o termo liga-se tanto à capacidade de produzir um som muito forte e atraente ou de alerta como, por associação cultural, à imagem das criaturas do mar que chamavam a atenção dos marinheiros. Em português, esta tradição morfológica e semântica evoluiu para o uso da palavra ‘sereia’ para designar a buzina do navio como um sinal sonoro que, de forma figurada, ‘canta’ alto para ser ouvido a grandes distâncias.

Como funciona a buzina de um navio

Ao DIÁRIO, o Capitão do Porto do Funchal, Bruno Teles, esclareceu que a sereia de um navio é, normalmente, accionada por ar comprimido ou por sistemas eléctricos que libertam ar através de uma corneta específica. O som gerado é muito potente para poder ser ouvido além de vários quilómetros, tanto para comunicar com outras embarcações quanto como alerta em condições de nevoeiro ou manobras portuárias. A duração, o padrão e a intensidade dos sinais obedecem a regras internacionais de navegação, como por exemplo sinais curtos, longos ou combinações que têm significados específicos no tráfico marítimo.

No caso divulgado na nossa notícia, foi descrito que o som contínuo prolongado esteve relacionado com um exercício técnico (e possivelmente uma falha de válvula) do navio-cruzeiro Mein Schiff Relax, que acabou por torná-lo mais longo do que o normal no contexto de um teste de rotina.

A importância do som no mar

Num ambiente onde a visibilidade nem sempre é ideal e onde por vezes há muita névoa, chuva e noites escuras, o som torna-se um dos meios essenciais de comunicação entre embarcações. O sinal da ‘sereia” às vezes anuncia aproximação, início de manobra, ou mesmo emergência, funcionando como um complemento essencial aos sinais visuais e electrónicos a bordo.

A próxima vez que ouvir a sereia de um navio, seja numa manobra, num teste, ou em sinais regulamentares, saberá que o termo é muito mais do que um sinónimo poético de buzina e faz parte de séculos de história, tecnologia e tradição marítima.