Serão mil os utentes em lista de espera e institucionalizados nos lares?
Há números que inquietam mais do que discursos. E há frases lançadas no calor da indignação que parecem simples, mas exigem confirmação. “Com uma lista de 1.000 pessoas à espera de ir para um lar, vem esta ave rara com esta conversa”. A declaração ficou registada em nome de Daniela Junqueira nos comentários à notícia. A pergunta que fica no ar é directa: serão apenas mil? E serão apenas mil os que já estão institucionalizados? A acusação nasce da indignação. Tudo isto depois de a deputada Bina Pereira ter acusado o PS-Madeira de querer “retirar os idosos das suas casas”. O tema é recorrente e sensível. Mas o que dizem os factos? E o que dizem os números mais recentes?
Comecemos pela realidade nua e crua.
Segundo os dados públicos mais recentes, divulgados pelo JM, a 16 de Janeiro, estavam “1.301 idosos institucionalizados” em Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas sob alçada da Segurança Social na Madeira. Em “lista de espera” encontravam-se “1.332 candidatos”. Não são 1.000. São mais de 1.300 de cada lado.
Já o DIÁRIO, na edição de 10 de Agosto de 2025, confirmava a pressão estrutural, ou seja, mais de 1.300 idosos aguardavam naquela altura por vaga, número que equivale praticamente à capacidade instalada, situada em cerca de 1.457 lugares. Em bom rigor, a lista de espera representa quase a totalidade da oferta existente.
Esmiuçando: a Madeira tem praticamente tantos idosos à espera de lugar como aqueles que já vivem em lares. O sistema está num ponto de equilíbrio instável. Basta um aumento na procura para o desfasamento se agravar.
Mas existem outros dados oficiais referentes a Dezembro de 2025 que se prendem com o Serviço de Apoio Domiciliário (SAD). Este apoia cerca de 3.148 utentes na Região e nas suas próprias casas. E mais: 528 utentes beneficiam de fornecimento de refeições ao domicílio.
Estamos a falar de mais de 3 mil idosos que continuam nas suas habitações, com apoio estruturado, evitando institucionalização. Este número é mais do dobro dos que vivem actualmente em lares. É mais do que o dobro da lista de espera. É o verdadeiro pilar silencioso do sistema, um modelo que assenta, em larga medida, na permanência no domicílio. O SAD tem sido a principal resposta social para a população idosa.
Ora, é neste cenário que surge a proposta do PS-Madeira de implementar um modelo de habitação colaborativa sénior, um projecto-piloto inspirado em experiências europeias, destinado a idosos que não se revêem na institucionalização tradicional mas que também não querem ou não conseguem permanecer sozinhos. A acusação do PSD é politicamente forte na medida em que, ao propor ‘cohousing’, o PS estaria a retirar idosos das suas casas.
A frase da deputada social-democrata pode ser entendida como eficaz. Mas corresponde ao texto da proposta?
Não há, na formulação conhecida do projecto de resolução socialista, qualquer imposição de saída obrigatória do domicílio. Não há referência a transferência compulsiva. Não há mecanismo de substituição forçada da residência própria. Trata-se de uma recomendação para criar uma resposta alternativa e voluntária.
Aliás, os próprios números desmontam uma parte da narrativa emocional. A ideia repetida de que há “1000 à espera” é falsa à luz dos dados mais recentes. São 1.332. E são 1.301 os já institucionalizados.
Mais do que discutir se alguém quer “tirar idosos de casa”, o problema estrutural é outro, na verdade a Madeira enfrenta uma pressão demográfica crescente, com o grupo dos 85-89 anos a ganhar peso nos internamentos e com a população idosa a aumentar. A lista de espera praticamente iguala a capacidade instalada.
Perante este quadro, há duas leituras políticas possíveis.
Uma entende que a prioridade deve ser apenas aumentar camas e reforçar o modelo clássico de lar. Outra defende que, além de aumentar oferta, é preciso diversificar respostas, incluindo modelos intermédios entre viver sozinho e entrar numa ERPI tradicional.
Mas dizer que o PS quer retirar idosos das suas casas, à luz do que está escrito e conhecido, é extrapolação política. Não há base factual para afirmar que exista proposta de remoção obrigatória.
Conclusão do fact-check:
Não são mil os institucionalizados. São 1.301.
Não são mil os que aguardam vaga. São 1.332.
E não há evidência textual de que o PS-Madeira proponha retirar idosos das suas casas de forma compulsiva.