"Que Madeira queremos construir a partir do sucesso?"
A economia madeirense enfrenta o desafio de converter o crescimento das empresas em mais produtividade, melhores salários e condições de vida para quem trabalha na Região. Esta foi a ideia central da intervenção de Sérgio Jesus, managing partner da ECAM, na cerimónia das 500 Maiores e Melhores Empresas da Madeira.
Em 2025, a actividade agregada das empresas analisadas atingiu 4,4 mil milhões de euros, mais 7,7% do que no ano anterior. Os resultados líquidos cresceram 4,1%, para 524 milhões de euros, e 323 das 500 empresas melhoraram os resultados. O número de empresas com prejuízos desceu de 41 para 34.
Mas os indicadores também revelam pressões. A margem líquida agregada recuou de 12% para 11%, os custos com pessoal aumentaram 13% e o número de trabalhadores passou de cerca de oito mil para 9.462. “Criar emprego é uma excelente notícia”, afirmou Sérgio Jesus, mas a sustentabilidade deste crescimento dependerá da capacidade das empresas para “aumentar a produtividade, gerar mais valor e absorver custos crescentes sem comprometer a sua competitividade”.
“Depois de conquistarmos o crescimento, temos agora de conquistar a qualidade desse crescimento”, defendeu. Para o responsável da ECAM, não basta aumentar as vendas ou a dimensão das empresas: o crescimento deverá traduzir-se em produtividade, melhores salários, inovação e solidez financeira. A autonomia financeira agregada subiu de 54% para 58%, um reforço que, na sua leitura, deixa as empresas mais preparadas para investir e tomar decisões de longo prazo.
A habitação foi apontada como um problema económico, além de social. As rendas na Madeira aumentaram 17% em termos homólogos no segundo trimestre de 2026. Em Agosto, a avaliação bancária da habitação rondava os 2.600 euros por metro quadrado na Região e o preço mediano das transacções no Funchal atingia os 3.600 euros.
“A habitação deixou de ser apenas uma questão social. Tornou-se também uma questão de competitividade empresarial”, afirmou, relacionando o custo da habitação com a capacidade das empresas para recrutar e fixar trabalhadores. “A atractividade da Madeira não pode ser avaliada apenas pela sua capacidade de atrair visitantes, investimento e talento. Deve ser medida também pela capacidade de garantir que aqueles que aqui trabalham conseguem aqui construir o seu projecto de vida.”
Sérgio Jesus defendeu ainda que a Região deve avaliar o turismo pelo valor que deixa na economia e pelo impacto na qualidade de vida, nas infra-estruturas e no emprego. A inteligência artificial poderá ajudar as empresas a aumentar a produtividade e a crescer sem depender apenas de mais trabalhadores, mas exigirá investimento nas pessoas e nas suas competências.
No final, deixou a pergunta que orientou a intervenção: “Que Madeira queremos construir a partir do sucesso que alcançámos?” A resposta, disse, passa por uma Região “aberta ao mundo, competitiva e inovadora”, onde as empresas possam crescer e as pessoas viver, trabalhar e prosperar. “Uma economia verdadeiramente bem-sucedida não é apenas aquela que cria riqueza; é aquela que consegue criar riqueza sem afastar do seu próprio sucesso as pessoas que todos os dias ajudam a construir.”