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Fact Check Madeira

É o turismo o “combustível” da Madeira?

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Na última semana, o DIÁRIO publicou uma análise que colocava a Madeira entre as regiões europeias onde o turismo tem maior peso em relação à população residente. Em 2024, foram registadas cerca de 38,6 dormidas por habitante, quase cinco vezes mais do que a média nacional. A Região apresentava também uma das maiores densidades turísticas da Europa, com 11.900 dormidas por quilómetro quadrado.

A notícia gerou vários comentários nas redes sociais. Entre eles, o de um leitor que, numa apreciação positiva ao fenómeno, escreveu: “Ainda bem que temos turistas, é o ‘combustível’ da ilha!”.

A expressão é, naturalmente, uma metáfora. Mas terá sustentação nos números? Será o turismo, de facto, o principal motor da economia regional?

Para verificar a afirmação, recorremos aos dados oficiais da Direcção Regional de Estatística da Madeira (DREM), do Instituto Nacional de Estatística (INE) e do Eurostat. Consultámos também o arquivo do DIÁRIO, procurando perceber até que ponto a dependência do turismo tem sido reconhecida ao longo dos anos.

Tivemos um cuidado: intensidade turística e peso do turismo na economia não são a mesma coisa. Ter muitas dormidas por habitante ou por quilómetro quadrado não significa, por si só, que igual proporção da riqueza regional seja gerada pelo turismo.

A melhor medida para responder à questão está na Conta Satélite do Turismo da Madeira. Os últimos dados disponíveis são de 2019 e mostram que o Valor Acrescentado Bruto Gerado pelo Turismo representava 16,2% do VAB regional. No conjunto do País, o peso era de 8,1%. Ou seja, proporcionalmente, o contributo directo do turismo para a criação de riqueza na Madeira era o dobro do nacional.

A diferença também era evidente no emprego. As actividades características do turismo representavam 17% do emprego na Região, contra 9,7% a nível nacional.

Há outro número que pode induzir em erro. Em 2019, o Consumo do Turismo no Território Económico correspondia a 28,8% do PIB regional. Isso não significa que o turismo gerasse quase 29% da riqueza da Madeira. A própria DREM esclarece que, para medir o peso do turismo na economia, o indicador adequado é a relação entre o VAB gerado pelo turismo e o VAB total. Daí os 16,2%.

Os dados são anteriores à pandemia, mas os indicadores mais recentes não apontam para uma perda de importância do sector. Pelo contrário. Em 2024, alojamento e restauração foram o ramo que mais contribuiu para o VAB das empresas não financeiras da Região: 796 milhões de euros, ou 23,2% do total. Não se pode considerar todo esse valor como turismo, da mesma forma que parte da actividade turística também se reflecte nos transportes, comércio e outras áreas.

Há, contudo, uma forma particularmente clara de perceber a dependência da economia regional: observar o que aconteceu quando os turistas praticamente desapareceram.

Em 2020, com as restrições impostas pela pandemia, o PIB da Madeira caiu 15,4% em termos reais, quase o dobro dos 8,3% registados no País. Só o Algarve sofreu uma quebra maior. Na explicação dos resultados, a DREM apontou precisamente a “especialização da economia da RAM em actividades relacionadas com o Turismo, fortemente afectadas pela pandemia”.

Quando os turistas começaram a regressar, aconteceu o inverso. Em 2021, o PIB regional cresceu 9,2%, o maior aumento entre as regiões portuguesas. A DREM atribuiu a recuperação à actividade turística, classificando-a mesmo como o “principal dínamo da economia da Região”. Em 2022, o crescimento real do PIB chegou aos 16,5%, novamente muito associado à recuperação das actividades turísticas.

A dependência não passou despercebida ao próprio Governo Regional. Em Julho de 2020, quando estava a ser preparado o Plano de Desenvolvimento Económico e Social da Região 2030, o então vice-presidente Pedro Calado defendia que a Madeira do futuro teria de estar menos dependente do turismo. Uma das necessidades identificadas era fazer com que a economia não dependesse tanto daqueles que eram considerados os sectores dominantes.

Três anos depois, António Horta-Osório fazia uma leitura semelhante numa entrevista ao DIÁRIO. O gestor considerava que a Madeira tinha um modelo económico “muito assente no Turismo” e que podia e devia reduzir essa dependência através do desenvolvimento de outras áreas.

Entretanto, o turismo cresceu. Em 2024, a Madeira ultrapassou 11,8 milhões de dormidas no alojamento turístico, mais 44,8% do que em 2019, e os proveitos totais atingiram 761,1 milhões de euros, mais 86,8% do que cinco anos antes. Cerca de 85,8% das dormidas foram geradas por estrangeiros não residentes.

Os números não permitem dizer que a Madeira vive apenas do turismo, nem que este representa um quarto ou um terço de toda a riqueza produzida na Região. Mostram, porém, que o seu peso directo na economia é muito superior ao registado no conjunto do País e que a evolução da actividade económica regional está fortemente ligada ao comportamento do sector.

A pandemia tornou essa relação particularmente visível: quando o turismo parou, a Madeira sofreu uma das maiores quedas económicas do País; quando regressou, esteve entre as regiões que mais cresceram.

É, por isso, sustentada pelos factos a metáfora utilizada pelo leitor. Se por “combustível” se entende o principal motor da economia madeirense, os indicadores oficiais apontam nesse sentido. A própria estatística regional já classificou o turismo como o “principal dínamo da economia da Região”.

Como se pode verificar pelo exposto, a comparação feita pelo leitor encontra sustentação nos dados disponíveis. O turismo não representa a maioria da riqueza produzida na Madeira, mas tem um peso na economia regional muito superior ao registado no conjunto do País e a evolução económica da Região mostrou-se particularmente dependente do comportamento desta actividade. Se a expressão “combustível” for entendida como principal motor da economia madeirense, a afirmação é avaliada como verdadeira.

“Ainda bem que temos turistas, é o ‘combustível’ da ilha!” – C. Fernandez, Comentário de no Facebook do dnoticias.pt