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Que turismo queremos?

Há uma pergunta que a Madeira deveria fazer com mais insistência: queremos continuar a medir o sucesso do turismo pelo número de pessoas que chegam à Região ou devemos começar a medir o valor que cada visitante acrescenta à economia madeirense?

Os dados mais recentes ajudam a mudar a pergunta.

Em Julho, o alojamento turístico registou 247,4 mil hóspedes e 1,343 milhões de dormidas. Os hóspedes cresceram apenas 0,4% e as dormidas 2,2%. Mas os proveitos totais aumentaram 5,8%, para 101,8 milhões de euros. O ADR (Rendimento Médio por Quarto) subiu 6,1%, para 155,14 euros, e o RevPAR atingiu 127,05 euros.

É um dado importante. Estamos a conseguir aumentar a receita sem aumentar na mesma proporção o número de turistas. E é precisamente esta a mudança de paradigma que devemos defender: menos preocupação com o crescimento em volume e maior atenção à criação de valor e à rentabilidade do destino.

Mas há uma pergunta que não pode ficar por responder: valor para quem?

Porque preço, receita e riqueza não são a mesma coisa.

A última Conta Satélite do Turismo disponível para a Região, relativa a 2019, estimou em 723,1 milhões de euros o VAB gerado pelo turismo, equivalente a 16,2% do VAB regional. As actividades características do turismo representavam 17% do emprego.

O turismo é, portanto, estrutural para a nossa economia. Mas precisamos de saber quanto do valor criado fica efectivamente na Madeira, quanto se transforma em salários, quanto corresponde a bens e serviços produzidos localmente e que impacto tem sobre a produtividade.

E precisamos de medir também o outro lado da equação.

Quanto custa este turismo em infra-estruturas, mobilidade, água, energia, resíduos, território e habitação? Quanto custa aos residentes?

O próprio Secretário do Turismo reconheceu que um destino turístico só pode sê-lo verdadeiramente se for também um bom lugar para viver. A afirmação é importante porque contém o limite que nenhuma estatística de turismo pode ignorar.

Uma Madeira mais rentável para o turismo não pode ser uma Madeira menos acessível para os madeirenses.

Existe aqui um risco real de política pública: se o crescimento do valor turístico resultar sobretudo de preços mais elevados, sem correspondente aumento da produtividade e do rendimento regional, poderemos estar a confundir valorização do produto turístico com criação de riqueza para a Região.

E existe outro risco, ainda maior: a pressão crescente sobre habitação, mobilidade, território e recursos naturais pode começar a degradar precisamente aquilo que torna a Madeira atractiva.

Uma ilha tem limites. E o turismo também.

Por isso, a questão já não deve ser quantos turistas conseguimos receber.

Deve ser quanto valor conseguimos criar por visitante, quanto desse valor fica na Madeira e qual é o custo desse crescimento para quem cá vive.

A Madeira já demonstrou que sabe atrair turistas.

O verdadeiro desafio é mais exigente: crescer em valor sem transformar o crescimento turístico num custo para os residentes e sem consumir os activos que fazem da Madeira um destino turístico.

Esse deveria ser, a partir de agora, o verdadeiro indicador de sucesso.