Transportes públicos: um problema de segurança
Há decisões políticas difíceis de contestar: tornar os transportes públicos mais baratos, facilitar a mobilidade das famílias e incentivar jovens e idosos a utilizar o autocarro.
Na Madeira, os passes foram sendo reduzidos e vários grupos passaram a beneficiar de gratuitidade. O objectivo é claro: aumentar a utilização dos transportes públicos e reduzir o recurso ao automóvel.
Mas há uma pergunta que importa fazer: a oferta acompanhou o aumento da procura?
Quem utiliza regularmente determinadas carreiras conhece a realidade: autocarros cheios, passageiros em pé e, em certos horários, uma capacidade que parece insuficiente.
Um autocarro cheio pode ser sinal de sucesso de uma política pública. Mas deixa de o ser quando revela falta de capacidade do sistema.
Mais passageiros exigem mais autocarros, maior frequência, horários ajustados e condições de segurança adequadas. Não podemos querer retirar carros das estradas colocando simplesmente mais pessoas dentro dos mesmos autocarros.
A questão torna-se particularmente sensível nas ligações entre o Funchal e Machico através da Via Rápida. Há veículos devidamente homologados para transportar passageiros em pé, mas isso não significa que possam circular acima da lotação permitida ou em condições que comprometam a segurança.
Por isso, importa perguntar: os autocarros que circulam na Via Rápida transportam passageiros dentro das condições legalmente autorizadas? Quem fiscaliza a lotação? Quem verifica se o veículo é adequado ao serviço? E quem responde se ocorrer um acidente?
Também não é razoável colocar a responsabilidade sobre o passageiro que, às sete da manhã, entra num autocarro cheio porque precisa de chegar ao trabalho e não tem alternativa imediata.
Se determinadas carreiras enchem sistematicamente, cabe aos responsáveis analisar a procura e ajustar a oferta.
A ideia é simples: transporte público gratuito ou barato não pode significar transporte público sem capacidade.
Não precisamos de esperar por um acidente grave para discutir esta questão. Se queremos que mais madeirenses utilizem o autocarro, é preciso garantir que o podem fazer com segurança.
Luís Ferreira