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Crónicas

Outono, 1987

Lá fora, muito para lá do mar, nesse país que eu só conhecia da televisão, Cavaco calara a oposição e governava com uma maioria absoluta

Quando cheguei às aulas, no Outono antes dos meus 17 anos, vinha bronzeada e trazia uma dose de confiança que ainda hoje me espanta. Nunca soube explicar se foi de mim ou do ambiente, mas a Lina Marta que se apresentou à turma questionava os professores e, imagine-se, tinha ideias e opiniões sobre os autores clássicos da literatura portuguesa, sobre filosofia e qualquer outro assunto que se levantasse a debate. E era como se a miúda tímida, que comia bolos no intervalo e usava fitas de cetim no cabelo, tivesse sido engolida por três meses de férias entre a beira-mar e as leituras na espreguiçadeira de lona no quintal.

Lá fora, muito para lá do mar, nesse país que eu só conhecia da televisão, Cavaco calara a oposição e governava com uma maioria absoluta, enquanto as pessoas se deslumbravam com os milhões dos fundos europeus. O dinheiro chegava em quantidades nunca antes vistas e, todos os dias no noticiário ao fim da noite, passava a cotação das acções na Bolsa de Lisboa. Se não era Wall Street ao menos tinha semelhanças, não faltavam títulos nos jornais sobre OPVs e, tivessem poucos ou muitos estudos de economia, todos pareciam entender o que era uma Oferta Pública de Venda. E também iam perceber os impactos de um ‘crash’.

Só que isso ia ser mais adiante e iria coincidir com a estreia do Roque Santeiro, a telenovela que deixava as ruas desertas e que nos ia por a repetir o “tô certo ou tô errado” do sinhozinho Malta. Eu até achava que os versos que a Fafá de Belém cantava sempre que aparecia a filha do ‘sinhozinho’ podiam ter sido escritos por mim se não fosse a minha incompetência e pouco talento para rimas e poemas. “O amor se quer se chegar nunca deixa para depois” e eu, que ainda tinha medo do escuro e só adormecia com a luz da mesinha de cabeceira ligada, cabia por inteiro naquele verso.

E, tão ingénua como é apenas possível aos 16 anos, acreditava que algures, nesse mundo imenso do qual conhecia a cidade, o Laranjal, o Lido e pouco mais, um rapaz - bonito e muito inteligente - procurava por mim. Essa pessoa, essa ideia de pessoa, iria encontrar-me, mais tarde ou mais cedo. Eu gostava que fosse depressa para dançar comigo no baile das capas em Dezembro e ir às matinés no Teatro Municipal e do D. João, onde, nesse tempo, passavam os filmes de autor que o meu irmão e eu íamos ver. Apesar do meu empenho, dos sapatos de salto e da mini saia, foi mesmo o meu irmão quem me levou ao baile e me trouxe inteira para casa às quatro da manhã.

Também não trouxe do baile um príncipe encantado, nem bonito, nem culto, nem me lembro de ter sequer dançado com alguém em especial e decerto nenhum deu por mim. As melhores memórias da noite em que sai sozinha pela primeira vez são uma sensação de liberdade que tomou conta de mim quando descia, com o meu irmão, Avenida do D. Infante a caminho do taxi que nos ia levar a casa. A Lina Marta dera um passo na vida adulta e ser dona das minhas decisões valia quase tanto como ter encontrado o tal rapaz, o tal que vivia na minha cabeça, resultado dos livros e dos filmes, das telenovelas, das canções da rádio e de tudo o que contribuía para ser quem era.

A dose de confiança com que cheguei a esse Outono não foi abalada por isso ou pelos namoricos e histórias falhadas no pátio do liceu ou no Académico, onde se ia no intervalo grande, falar, até de assuntos importantes, entre um café e um cigarro. E era como se fosse proibido perder a esperança, a minha e a do país, que melhorava a cada semestre. O orgulho até seria revigorado antes do Inverno chegar com a vitória do Porto a meio da neve, lá em Tóquio, com uma bola cor de laranja, um jogo que deu madrugada dentro e só o meu tio Humberto viu. E todos celebraram o feito, mesmo os de outros clubes que em 1987, a precisar tanto de histórias de sucesso, os adeptos, mesmo os rivais, viviam ainda numa idade da inocência.

Mais ou menos como eu, que escrevia textos em cima da cama, em blocos de papel perfumado, tinha medo do escuro e sonhava com o amor verdadeiro, com essa pessoa perdida entre os milhões que havia no mundo, com a mesma intensidade com que queria ter a vida nas mãos e ia aos ciclos de cinema do Cine Fórum, ver filmes que, quase sempre, me deixavam espantada. Ou então lia livros difíceis e tristes, que me confundiam mais do que me esclareciam e, nem assim, deixava de os ler, mas eu tinha um plano para ligar todos os pontos de mim num só, uma ideia que tinha trazido do Verão e que ganhou forma naquele Outono em que a adolescente que comia bolos cedeu passagem à jovem com um brilho desafiador no olhar, a mesma que ia aterrar, uns anos depois, em Lisboa.