Uma geração a sobreviver antes de conseguir sonhar
Há uma pergunta que me acompanha cada vez mais: que futuro estamos a construir para quem começa agora a vida adulta?
Falo como jovem. Como alguém que trabalha, que tenta organizar a própria vida e que olha para o sonho de ter uma casa como algo cada vez mais distante.
A habitação deixou de ser apenas um problema económico. Tornou-se um problema de projeto de vida.
Quando uma renda consome grande parte do salário, quando comprar casa exige valores incomportáveis e quando sair de casa dos pais se transforma num privilégio, não estamos apenas a adiar uma mudança de morada. Estamos a adiar independência, estabilidade, família, filhos e, muitas vezes, a própria decisão de ficar no país onde nascemos.
Depois ouvimos dizer que os jovens são mais individualistas, mais egoístas ou que já não querem assumir responsabilidades como as gerações anteriores.
Talvez a questão seja outra.
Talvez não sejamos uma geração que deixou de sonhar. Talvez sejamos uma geração que foi obrigada a aprender a sobreviver antes de conseguir sonhar.
Mas este problema não termina nos jovens.
Do outro lado estão os nossos pais e avós. Pessoas que trabalharam uma vida inteira e que chegam à reforma com rendimentos que, em demasiados casos, mal acompanham o custo da habitação, alimentação, medicamentos e restantes despesas básicas.
E é aqui que as duas gerações se encontram. O jovem que ainda luta para conseguir pagar a própria casa é, muitas vezes, o mesmo filho ou neto que terá de ajudar um familiar quando este perde autonomia.
Quando uma pessoa idosa ou dependente já não consegue permanecer sozinha em casa, surgem necessidades que poucas famílias conseguem suportar sem apoio: adaptações da habitação, cuidados permanentes, equipamentos, deslocações e respostas residenciais cujo custo pode ultrapassar largamente aquilo que uma reforma permite pagar. Quando essa resposta não existe, o problema não desaparece.
Pode acabar numa família esgotada, num cuidador informal que deixa a própria vida para cuidar de alguém ou até numa cama hospitalar ocupada por uma pessoa que já tem alta clínica, mas não tem uma resposta social adequada para onde ir.
Chamamos-lhes, muitas vezes, “altas problemáticas”. Mas talvez devêssemos lembrar-nos de que o problema não é a pessoa.
O problema é aquilo que faltou à volta dela.
Faltou uma habitação adequada. Faltou rendimento. Faltou apoio domiciliário. Faltou uma vaga acessível. Faltou uma resposta social que permitisse envelhecer com dignidade sem transformar os filhos e netos na última rede de segurança de tudo aquilo que o sistema não conseguiu resolver.
É difícil construir futuro quando uma geração é pressionada simultaneamente por dois lados: tentar conquistar a sua independência e, ao mesmo tempo, garantir que quem cuidou dela durante uma vida não fica desamparado.
Por isso, a crise da habitação, o envelhecimento, as reformas baixas, os cuidadores informais e as altas sociais não são problemas separados.
Encontram-se dentro das mesmas famílias. Somos uma Região pequena e um país pequeno. Isso não deveria significar menos capacidade para encontrar soluções. Talvez devesse significar precisamente o contrário: maior proximidade, melhor conhecimento das necessidades e políticas públicas capazes de olhar para as pessoas antes de olhar apenas para números.
Porque trabalhar deveria permitir construir uma vida.
E trabalhar uma vida inteira deveria permitir envelhecer com dignidade. Não podemos continuar a pedir aos jovens que adiem indefinidamente o futuro e aos idosos que aceitem como inevitável perder segurança e autonomia.
No fim, a pergunta é simples:
Que sociedade queremos ser?
Uma que contabiliza salários, rendas, reformas, camas e vagas?
Ou uma que se lembra de que, por trás de cada um desses números, existe uma pessoa a tentar viver com dignidade?
Alexandre Alves