Antes de o chão faltar
Quando o chão nos faltar, não teremos necessariamente de nos levantar sozinhos
Estamos preparados para aquilo que não sabemos que vai acontecer? Provavelmente não. Ainda assim, vivemos como se o dia seguinte estivesse garantido.
Acordamos, começamos mais um dia, cumprimos responsabilidades, respondemos às exigências da rotina e seguimos em frente. Confiamos, quase sem dar por isso, que o mundo continuará suficientemente parecido com aquele que conhecemos. Até ao dia em que deixa de ser. E, tantas vezes, basta um instante.
Pode acontecer num sismo, numa inundação, num incêndio. Pode chegar sob a forma de uma doença, de uma perda, de uma separação, de uma notícia que divide a nossa história entre um antes e um depois. Escrevi sobre isto na crónica Essencial anterior. Mas a leitura do livro Guia para Sobreviver a uma Emergência, de André Morais, especialista em proteção civil, publicado pela Penguin Random House, voltou a colocar-me perante uma questão essencial: o que significa estarmos preparados para aquilo que não controlamos?
O autor termina com uma ideia que ficou comigo: “O objetivo não é prever, é estar pronto”.
É uma das aprendizagens mais importantes da maturidade. Passamos boa parte da vida a tentar antecipar acontecimentos, controlar circunstâncias e evitar sofrimento. Confundimos segurança com previsibilidade, como se compreender o que nos rodeia fosse suficiente para impedir que alguma coisa nos desorganize.
A vida não nos deve garantias, e há acontecimentos que não cabem em nenhum dos nossos planos.
O cérebro procura padrões, referências, certezas. Perante uma ameaça, o medo pode estreitar a nossa atenção e dificultar a avaliação das alternativas. Sob pressão, dificilmente conseguimos pensar com a clareza que imaginávamos ter. É por isso que a preparação importa. Embora não nos torne imunes ao inesperado, acaba por nos ajudar a encontrar respostas quando o inesperado chega. Porque, mais tarde ou mais cedo, ele chega.
Na vida emocional acontece algo semelhante. Autorregularmo-nos é reconhecer as emoções sem lhes entregar automaticamente o comando das decisões. É perceber que sentir medo não significa que tenhamos de ficar paralisados, tal como sentir raiva não nos obriga a agir sob o seu impulso.
Esta capacidade não nasce no instante em que tudo desaba. Constrói-se antes, nas pequenas contrariedades, nas conversas difíceis, na forma como lidamos com a frustração e na disponibilidade para escutar quem pensa de maneira diferente. Ensaiamos todos os dias a pessoa que seremos nos dias difíceis.
Depois, há uma dimensão da preparação de que falamos menos: a forma como nos relacionamos com os outros.
André Morais lembra, e bem, que a proteção civil começa antes da chegada das equipas de socorro. Começa nos cidadãos, na atenção a quem precisa de ajuda, na relação entre vizinhos e na responsabilidade que assumimos uns pelos outros.
É uma ideia a que volto muitas vezes, nas reportagens, na escrita e nas conversas. Porque sinto que continuamos a confundir força com autossuficiência, como se precisar de alguém diminuísse o nosso valor. Não diminui. Há momentos em que a nossa capacidade de resposta depende precisamente da disponibilidade de outra pessoa para nos ajudar a ver o que, sozinhos, já não conseguimos ver.
Há uma diferença gritante entre morar ao lado de alguém e ser seu vizinho.
A proximidade física não garante proximidade humana. Podemos partilhar um prédio, uma rua ou um bairro sem saber quem vive ao nosso lado, se está sozinho, se precisa de ajuda ou se teria alguém a quem recorrer numa emergência. Só descobrimos o valor destas relações quando precisamos delas. E, nessa altura, já pode ser tarde para começar a construí-las.
Esta reflexão leva-me inevitavelmente à parentalidade. A segurança que oferecemos hoje deve também servir a autonomia de amanhã. Proteger não é impedir que a vida lhes coloque obstáculos. É ajudá-los a desenvolver recursos para os enfrentar.
É essencial que uma criança cresça consciente de que nem tudo na vida correrá como espera, e tentar convencê-la do contrário é prepará-la mal para a realidade. Portanto, o ideal é que as crianças sintam, desde sempre, que podem pedir ajuda, procurar soluções, adaptar-se e recomeçar. Que compreendam que falhar não significa ser incapaz e que sentir medo não significa não conseguir avançar.
A segurança que oferecemos hoje deve também servir a autonomia de amanhã.
Outra ideia do guia ficou a ecoar em mim: perante uma emergência, podemos perder tempo à espera de compreender exatamente o que está a acontecer. Procuramos confirmações, tentamos encaixar o inesperado no que já conhecemos e, enquanto hesitamos, algumas possibilidades desaparecem.
Também na vida permanecemos, muitas vezes, demasiado tempo em situações que deixaram de nos fazer bem. Adiamos conversas, mudanças e decisões à espera de uma certeza absoluta, como se fosse possível eliminar todo o risco antes de avançar. Confundimos prudência com imobilidade.
Onde é que fomos buscar a ideia de que todas as decisões exigem rapidez? Muitas precisam de tempo, reflexão, ponderação e cuidado. E há momentos em que a realidade já mudou e somos nós que continuamos agarrados à versão anterior. Crescer também é reconhecer quando chegou a hora de deixar de esperar que tudo volte a ser como era.
O que retiro deste livro vai muito além da mochila de emergência, da lanterna ou do plano de evacuação. É um convite a trazer para o quotidiano uma forma mais consciente de viver, criando hábitos que nos ajudem a responder, cultivando relações em que possamos confiar e aprendendo a distinguir aquilo que podemos controlar daquilo que teremos de enfrentar. É preciso ter claro que estar preparado não significa ter todas as soluções. Significa desenvolver a capacidade de procurar alternativas, reconhecer os próprios limites e pedir ajuda quando os nossos recursos não chegam.A verdadeira preparação começa muito antes de a emergência chegar. Está na forma como aprendemos a lidar com a incerteza, na coragem de reconhecer e comunicar os nossos limites, nas relações que escolhemos construir enquanto tudo parece estar bem. Porque não controlamos o que a vida nos traz, mas podemos decidir como nos preparamos para a acolher. E, sobretudo, podemos deixar de viver como se cada um tivesse de ser suficiente para si próprio.