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Explicador Madeira

Três sinais de alerta de um AVC que podem salvar uma vida

O acidente vascular cerebral continua entre as principais causas de morte e incapacidade em Portugal. Na Madeira são registados entre 600 e 700 casos por ano. Saber reconhecer os sintomas, agir rapidamente e controlar os factores de risco pode fazer a diferença entre uma recuperação e uma vida marcada por sequelas. Amanhã é Dia Mundial do AVC, explicamos, por isso, o que deve saber, como actuar numa emergência e quais os cuidados que ajudam a prevenir a doença.

Uma pessoa está a conversar normalmente e, de repente, deixa de conseguir pronunciar as palavras. Outra tenta levantar-se, mas sente que perdeu a força numa das pernas. Há ainda quem repare que um familiar apresenta a boca desviada, sem perceber imediatamente o que está a acontecer. São situações que podem surgir em casa, no trabalho ou na rua e que exigem uma reacção imediata, ou seja, pode estar em curso um acidente vascular cerebral (AVC).

O AVC acontece quando o fornecimento de sangue a uma parte do cérebro é interrompido ou quando ocorre a ruptura de um vaso sanguíneo. Sem oxigénio e nutrientes suficientes, as células cerebrais começam a sofrer lesões, algumas das quais irreversíveis. É por isso que os médicos insistem numa mensagem simples: quanto mais depressa o doente receber assistência, maiores serão as possibilidades de sobrevivência e recuperação.

A propósito do Dia Mundial do AVC, a Organização Mundial do AVC volta a colocar a rapidez de resposta no centro da campanha internacional de 2026, sob o lema “Cada Minuto Conta”. A iniciativa pretende sensibilizar a população para os sinais de alerta, a importância de contactar imediatamente os serviços de emergência e o acesso a tratamentos especializados.

Embora o risco aumente com a idade, a doença também pode atingir adultos jovens. A hipertensão arterial, a diabetes, o colesterol elevado, o tabagismo, o sedentarismo e determinadas alterações do ritmo cardíaco são alguns dos factores que contribuem para o seu aparecimento. Há, contudo, uma mensagem fundamental, isto é, muitos AVC podem ser prevenidos e existem tratamentos capazes de reduzir significativamente as suas consequências. O primeiro passo é saber identificar os sintomas e nunca desvalorizar um sinal que aparece subitamente. 

O que é um AVC e porque acontece?

O acidente vascular cerebral é uma lesão do cérebro provocada por uma alteração súbita da circulação sanguínea. Existem duas formas principais da doença, que exigem tratamentos diferentes.

AVC isquémico — quando uma artéria fica obstruída. É a forma mais frequente. Um coágulo impede a passagem do sangue, privando parte do cérebro de oxigénio. Em determinados casos, os médicos podem administrar medicamentos para dissolver o coágulo ou recorrer a uma intervenção para o retirar.

AVC hemorrágico — quando um vaso sanguíneo rompe. A hemorragia provoca lesões no tecido cerebral e pode aumentar a pressão dentro do crânio. O tratamento pode exigir controlo rigoroso da tensão arterial, cuidados intensivos e, nalgumas situações, cirurgia.

Os sintomas podem ser semelhantes, pelo que só a avaliação médica e os exames de imagem permitem distinguir, com segurança, o tipo de AVC. 

Como reconhecer um AVC? A regra dos três F

FACE

Boca ao lado ou assimetria súbita do rosto.

FALA

Dificuldade em falar, compreender ou pronunciar palavras.

FORÇA

Perda de força ou sensibilidade num braço ou perna.

O que fazer quando alguém está a sofrer um AVC?

A rapidez da resposta pode determinar a gravidade das sequelas.

  1. Ligar imediatamente para o 112. Informar que existe suspeita de AVC, indicar a localização e descrever os sintomas.
  2. Registar a hora. É fundamental saber quando começaram os sintomas ou quando a pessoa foi vista pela última vez sem alterações.
  3. Manter a pessoa em segurança. Evitar que caminhe ou faça esforços e seguir as indicações dos profissionais de emergência.
  4. Não dar alimentos, bebidas ou medicamentos. O AVC pode afectar a capacidade de engolir. Não administrar aspirina por iniciativa própria, pois poderá agravar uma hemorragia.
  5. Não transportar a pessoa por meios próprios. A emergência médica pode encaminhá-la para a unidade adequada e iniciar a assistência durante o transporte.

Quanto tempo existe para tratar um AVC?

O tempo é decisivo, mas não existe uma única janela de tratamento para todos os doentes.

E se os sintomas desaparecerem ao fim de alguns minutos?

O desaparecimento dos sintomas não significa que o perigo tenha passado. Pode tratar-se de um acidente isquémico transitório (AIT), frequentemente descrito como um “mini-AVC”. Neste caso, a circulação sanguínea sofre uma interrupção temporária, provocando sinais semelhantes aos de um AVC que desaparecem rapidamente. Apesar de não provocar necessariamente uma lesão cerebral permanente, o AIT pode representar um aviso de que existe risco de um AVC posterior. A pessoa deve receber avaliação médica urgente, mesmo que já esteja a falar normalmente, tenha recuperado a força e se sinta bem. A indicação continua a ser contactar o 112, sem aguardar por uma consulta de rotina. 

Quem corre maior risco?

A probabilidade de sofrer um AVC aumenta com a idade, mas a doença não afecta exclusivamente os idosos. Pessoas mais jovens também podem sofrer acidentes vasculares cerebrais, incluindo indivíduos sem factores de risco previamente conhecidos. A hipertensão arterial é um dos factores de risco mais importantes e pode permanecer durante anos sem provocar sintomas. A diabetes, o colesterol elevado, o tabagismo, a obesidade, o sedentarismo e o consumo excessivo de álcool também contribuem para o risco.

Outro problema relevante é a fibrilhação auricular, uma alteração do ritmo do coração que favorece a formação de coágulos capazes de chegar ao cérebro. Existem ainda factores que não podem ser modificados, como a idade, os antecedentes familiares e a ocorrência de um AVC anterior. 

É possível prevenir um AVC?

Sim. Embora não seja possível eliminar completamente o risco, uma parte importante dos casos está relacionada com factores que podem ser controlados.

SEIS MEDIDAS DE PREVENÇÃO

Controlar a tensão arterial. Fazer medições regulares e cumprir a medicação prescrita. A hipertensão é um dos principais factores de risco.

Praticar actividade física. A OMS recomenda pelo menos 150 minutos semanais de actividade moderada para a maioria dos adultos.

Melhorar a alimentação. Reduzir o sal, privilegiar fruta, legumes, leguminosas e alimentos pouco processados.

Abandonar o tabaco e limitar o álcool. São medidas que protegem o sistema cardiovascular e reduzem vários riscos para a saúde.

Vigiar a diabetes e o colesterol. O diagnóstico e o tratamento adequados reduzem a probabilidade de complicações vasculares.

O AVC pode voltar a acontecer?

Sim. Quem já sofreu um AVC apresenta maior risco de ter outro, especialmente quando os factores que estiveram na sua origem não são devidamente controlados. É por isso que a prevenção secundária assume particular importância. O plano médico pode incluir medicamentos para controlar a tensão arterial e o colesterol, antiagregantes plaquetários ou anticoagulantes, quando clinicamente indicados, e tratamentos de determinadas alterações cardíacas ou arteriais.A medicação nunca deve ser interrompida ou modificada por iniciativa própria. O acompanhamento regular permite avaliar o risco de recorrência e ajustar os tratamentos. 

O AVC na Madeira: 800 casos por ano

O acidente vascular cerebral continua a representar um importante problema de saúde pública na Região Autónoma da Madeira. Em Março de 2026, o coordenador da Unidade de AVC do Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira (SESARAM), Patrício Freitas, estimou que ocorram anualmente entre 600 e 700 casos, valor que, segundo o especialista, se tem mantido relativamente estável. Trata-se de uma estimativa clínica divulgada nessa data, e não de um balanço estatístico fechado de 2026. O médico revelou ainda que a unidade especializada consegue tratar cerca de dois terços dos doentes afectados, sendo os restantes acompanhados noutros serviços, nomeadamente Medicina Interna. Reconheceu, contudo, limitações de capacidade para abranger todos os doentes.

CINCO NÚMEROS QUE IMPORTA CONHECER

MITOS E VERDADES SOBRE O AVC

“O AVC só acontece a pessoas idosas” — Falso. O risco aumenta com a idade, mas pessoas jovens também podem ser afectadas.

“Se não houver dor, não é um AVC” — Falso. Muitos AVC surgem sem dor. Uma alteração súbita da fala, da força ou da face pode ser o único sinal.

“Se os sintomas passarem, não preciso de ir ao hospital” — Falso. Pode tratar-se de um acidente isquémico transitório, que exige avaliação urgente.

“Quem sofreu um AVC nunca mais recupera” — Falso. Algumas pessoas conseguem uma recuperação completa ou quase completa, embora outras mantenham limitações.

“Ter a tensão arterial controlada ajuda a prevenir” — Verdadeiro. A hipertensão é um dos mais importantes factores de risco modificáveis.

“A melhor opção é levar imediatamente a pessoa de carro ao hospital” — Falso. O procedimento recomendado é contactar o 112, permitindo activar os meios de emergência e encaminhar o doente de forma adequada.

Fontes consultadas: Organização Mundial da Saúde (2025), World Stroke Organization — campanha de 2026, Direcção-Geral da Saúde, Sociedade Portuguesa do AVC, American Stroke Association, SESARAM e DIÁRIO de Notícias da Madeira (31 de Março de 2026).