DNOTICIAS.PT
País

Cerca de 200 pessoas protestam na Trindade no Porto por "casas para morar"

None
Foto JOSÉ COELHO /LUSA

Cerca de 200 pessoas juntaram-se hoje na estação de metro da Trindade, no Porto, para se manifestarem pelo direito à habitação e reivindicar "casas para morar, não para especular".

Pelas 18:30, os manifestantes começaram a juntar-se ao protesto convocado pela plataforma Casa Para Viver, gritando "habitação é um direito, sem ela nada feito".

"Casas para morar, não para especular", "não nos vão roubar o direito a morar" e "queremos teto, queremos chão, pelo direito à habitação" foram outras das palavras de ordem entoadas pelos manifestantes, alguns também empunhando cartazes.

Pela voz de várias pessoas que deram o seu testemunho, além de declarações de outros movimentos ativistas, o protesto fez-se a ouvir, mas também a ver, com 'videoarte' projetada na parede superior da fachada da estação.

Uma foto de José Mário Branco acompanhada de "Paz, pão, saúde, habitação" e uma memória de que "há mais cravos do que bastões" acompanhavam dados estatísticos sobre o preço das casas na Europa.

Segundo explicou aos jornalistas a porta-voz Raquel Ferreira, o objetivo foi, como em Lisboa, "assinalar o início da discussão do Orçamento do Estado na Assembleia da República", marcando uma posição de "desacordo" quanto às medidas em cima da mesa para a habitação.

"Sabemos que o Orçamento do Estado, da forma que está a ser proposto, não responde às necessidades da população no que diz respeito à habitação. [...] Existem depoimentos por parte dos governantes e representantes políticos que estão completamente alheados da realidade", denunciou.

Raquel Ferreira notou que muitas pessoas "estão sufocadas com os custos da habitação no país" e o Governo tem respondido "com violência policial totalmente desproporcional", lembrando as cargas policiais em Lisboa e Porto.

Já o Presidente da República, António José Seguro, "também se manteve calado durante muitos dias", acrescentou.

O povo "exige mais", disse ainda a porta-voz, apelando a todos para que se juntem a uma manifestação que a plataforma Casa para Viver tem marcada, para vários pontos do país, para 14 de novembro.

"Querem reivindicar aquilo que é um direito constitucional, que é o direito à habitação, e acreditamos que as mobilizações para o dia 14 de novembro também vão ser bastante expressivas", afirmou.

Articulando com a Acampada que tem decorrido a poucos metros dali, na Praça D. João I, muitos manifestantes desceram até esse local, em "formas de luta que se complementam" em prol de "um direito básico como ter uma casa".

"Estamos solidários com todos os manifestantes na Praça D. João I e também no Rossio, em Lisboa. Repudiamos toda e qualquer violência policial", acrescentou.

Durante a madrugada de domingo, a PSP dispersou, à bastonada e com recurso a cães, as manifestações pelo direito à habitação em Lisboa e no Porto, após mais de duas horas de tensão e ordens para que as pessoas saíssem e as tendas fossem retiradas.

Os manifestantes não acataram as ordens, invocando o direito constitucional à manifestação.

Segundo a PSP, registaram-se, no total, 33 feridos e 33 detidos por desobediência. Em comunicado, as organizações das acampadas referiam dezenas de feridos.

A Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) abriu um processo na sequência das intervenções policiais que aconteceram na madrugada de domingo em Lisboa e no Porto. Também a provedora de Justiça pediu à PSP, com caráter de urgência, informações sobre a carga policial na madrugada de domingo sobre os manifestantes.

Os partidos de esquerda criticaram a intervenção policial e pediram esclarecimentos ao primeiro-ministro e a intervenção do Presidente da República.

O chefe de Estado apelou hoje ao diálogo sobre a habitação "e nunca à violência", afirmando que não gostou das imagens que viu, mas que aguarda o resultado dos inquéritos sobre a atuação policial sobre manifestantes.

Os manifestantes exigem a reversão da nova lei do arrendamento, o fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional, um travão à aquisição de habitação por fundos imobiliários, o aumento da habitação pública, a recuperação de imóveis devolutos para fins habitacionais e tetos "verdadeiramente acessíveis" à renda.