Há 104 anos, o Funchal recebia em apoteose Gago Coutinho e Sacadura Cabral
, Foto: Perestrellos Photographos/ Museu de Fotografia da Madeira-Atelier Vicente's, Inv. PER 2409, em depósito na DRABM
A chegada dos protagonistas da primeira travessia aérea do Atlântico Sul mobilizou a população, inspirou homenagens oficiais e levou milhares de pessoas ao centro da cidade. O DIÁRIO documentou a recepção na edição de 21 de Outubro de 1922 e relatou as despedidas na edição de dia 24.
O vapor ‘Porto’ acabava de entrar na baía do Funchal quando a notícia chegou à redacção do DIÁRIO. A bordo seguiam Gago Coutinho e Sacadura Cabral, os dois aviadores que tinham ligado Lisboa ao Rio de Janeiro por via aérea, numa viagem que entrara para a História.
No cais e nas avenidas da cidade, uma multidão aguardava a chegada dos homens que, poucos meses antes, tinham levado o nome de Portugal além-Atlântico. Era 21 de Outubro de 1922. A Madeira preparava-se para homenagear os protagonistas da primeira travessia aérea do Atlântico Sul, realizada entre 30 de Março e 17 de Junho desse ano.
Na edição desse sábado, sob o título “O maravilhoso raid Lisboa-Rio”, o DIÁRIO antecipava o entusiasmo popular e as celebrações organizadas para receber os aviadores, nos dias seguintes.
"O delirante entusiasmo da população" era o subtítulo da peça que previa que os madeirenses iriam repetir "a mesma apoteose de 17 de Julho". O programa preparado pelas autoridades incluía recepções oficiais, homenagens e actuações de bandas de música, com a participação de várias corporações locais e das escolas.
Se a edição de 21 de Outubro apresentava o calendário previsto, a de terça-feira, dia 24, recuperava os acontecimentos e descrevia a despedida. Não houve edição nos dias 22 e 23, pelo que foi nas páginas de terça-feira que os leitores encontraram o relato mais desenvolvido dos últimos momentos da visita.
Um almoço para 64 convidados
No domingo, 22 de Outubro, realizou-se no Palácio de São Lourenço um almoço de homenagem oferecido pelo governador civil do distrito e pela esposa, Maria Carvalhal de Albuquerque, em articulação com a Junta Geral e a Câmara Municipal do Funchal. Sentaram-se à mesa 64 pessoas, num encontro que o jornal descreveu como uma manifestação “brilhante e de alto relevo”.
A visita incluiu também uma passagem por São Gonçalo, onde os aviadores foram recebidos por centenas de pessoas. João Alves de Freitas, proprietário naquela localidade, ofereceu um brinde a Portugal e aos dois navegadores.
Sacadura Cabral respondeu com uma frase que o DIÁRIO registou nas suas páginas: “A Pátria somos todos para a Pátria!”
A homenagem prosseguiu no Teatro Dr. Manuel de Arriaga, perante representantes de diversas classes da sociedade madeirense. A Filarmónica Funchalense, bandas militares e agrupamentos locais executaram composições patrióticas, enquanto pombas eram lançadas pelas janelas do edifício. No decurso da cerimónia, foi inaugurado um busto de Manuel de Arriaga.
Os aviadores receberam ainda um estojo de prata oferecido em nome da população do Funchal, com a inscrição: “Homenagem do Povo do Funchal aos Aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral”.
Gago Coutinho, segundo o relato publicado no dia 24, agradeceu, visivelmente comovido, as manifestações de afecto e admiração de que tinham sido alvo na Madeira.
A despedida no cais
Antes da partida, os dois aviadores passaram pela Câmara Municipal para agradecer as homenagens. Pediram ao presidente, Nuno de Freitas Silveira, que transmitisse à população as suas “vivas e profundas sympathias” pelas recepções de que tinham sido alvo.
A despedida aconteceu a bordo do vapor “Porto”, onde a comissão das festas organizou uma última celebração. Foram servidos doces, vinhos finos e champanhe, perante centenas de pessoas, entre as quais muitas senhoras que tinham ido prestar uma última homenagem aos aviadores.
Às 16h30, o navio largou do cais, entre aclamações da multidão e saudações das bandas de música, que executavam a “Portuguesa” e o hino dos aviadores.
O DIÁRIO resumiu o ambiente vivido no Funchal com uma expressão que atravessava o relato da visita: “Foi um dos momentos mais vibrantes e entusiastas de que há memória na Madeira”.
A recepção de Outubro de 1922 ficou assim registada nas páginas do jornal como uma manifestação de orgulho colectivo pela proeza dos dois aviadores. Antes de regressarem à sua vida fora da ilha, Gago Coutinho e Sacadura Cabral receberam no Funchal uma homenagem que juntou autoridades, associações, bandas, escolas e populares, numa cidade que quis associar-se à celebração de um dos feitos mais marcantes da aviação portuguesa.
Descarregue e leia na íntegra as edições de 21 e 24 de Outubro de 1922: