Lar, esse lar.
A habitação é o lugar de pertença independentemente do país ser ou não o da sua naturalidade. Num tempo onde a mobilidade é cada vez maior e o país onde se vive nem sempre ser o da origem ou da identidade, a casa é o lugar que cada um pode tornar seu, o lar. Sozinho, em partilha, ou em família, a estudar ou a trabalhar, o lar é a possibilidade de criar aconchego, estabilidade, lugar de afetos.
Em família o lar é o lugar de crescimento onde pais e filhos criam as suas histórias, é a estrutura física que contém desequilíbrios, suporta medos e dificuldades, é o lugar seguro.
Assim sendo parece-me inquestionável considerar a habitação como um direito fundamental. Contudo, ainda que teoricamente e na generalidade o discurso social e político afirme o óbvio, na prática as nuances são tantas, que cada vez se afastam mais do essencial.
Há muitas pessoas em sofrimento por não poderem ter um lar e se verem obrigadas a aceitar ser exploradas por quem se encosta a um sistema frágil e desumano para ganhar mais uns trocos ou mesmo enriquecer. A desumanização da crise da habitação não é apenas uma questão política, é mais do que tudo a facilidade com que a própria comunidade se ajustou para encontrar uma forma de ganhar dinheiro fácil através das dificuldades de tantos outros.
Cada um a olhar para si, aproveitar uma oportunidade de ficar mais “rico” através da pobreza de outros, todos pertença da mesma comunidade. Há um egoísmo coletivo em crescimento, vale tudo, até mesmo fechar os olhos ou assobiar para o lado, “não é um problema meu”.
Uma sociedade a crescer neste sentido não chega longe e não é preciso pensar muito, basta ver e ouvir o que está a acontecer. Quem tem filhos e quem não os tem devia ter noção da herança geracional, perceber que valores quer deixar e quais não se importa de comprometer.
Estou perto de muitos jovens adolescentes e adultos jovens até aos trinta anos, e na relação que com eles estabeleço estou certa de que não vamos continuar a alimentar este egoísmo coletivo. A bolha está prestes a rebentar e quem quis acreditar que a segurança financeira é a tábua de salvação de maior valor, vai perceber o quanto viveu enganado e como tende a criar um espaço de solidão.
Chegou o momento de refletir, pensar para além do óbvio, sentir, ouvir o ruido. Não estamos bem e se muitos estiverem a sofrer, esse sofrimento vai expandir-se e chegar a todos. É a tendência.