A coragem para mudar de ideias
Fazendo uma reflexão sobre o meu pensamento atual em relação a determinadas matérias e comparando-o por exemplo com o que pensava quando entrei para a faculdade, facilmente chego à conclusão que mudei de ideias em várias delas. Talvez porque quando nos estamos a construir ainda vejamos e avaliemos através das lentes de outros ou apenas porque o espaço temporal mudou e com ele vieram novas opiniões e diferentes certezas. Não me considero um vira-casacas por isso, aceitar que mudámos é para mim sinónimo de desenvolvimento, como aceitar que estávamos errados em certos assuntos é sinal de inteligência, de humildade e de espírito livre e desempoeirado. Mas experimente dizer isto em voz alta numa reunião, mudei de ideias. Repare no que acontece à sala.
Vivemos num tempo em que mudar de opinião se tornou numa confissão de fraqueza. Em política chama-se cambalhota e dá manchete. No trabalho chama-se falta de rumo. Nas redes sociais chama-se hipocrisia, e há sempre alguém disponível para ir buscar o que escrevemos em 2017 e colar ao lado do que escrevemos hoje, como se fosse prova de um crime, agora imaginem-me a mim que já escrevi mais de 1000 crónicas no últimos 14 anos, nem sempre certo, nem sempre concordando hoje com o que escrevi no princípio. Construímos, sem dar por isso, um sistema que premeia a teimosia.
E convém perceber que isto é novo. Durante séculos, mudar de ideias era um sinal de inteligência e não havia arquivo ou “nuvem” para provar o contrário. Hoje tudo fica gravado. Cada opinião que emitimos sobre uma vacina, um treinador, um governo ou uma série de televisão está registada, datada e disponível para consulta pública durante o resto da nossa vida. A coerência deixou de ser uma virtude interior e passou a ser uma auditoria.
O resultado é perverso.
Quando mudar de posição tem um custo social tão alto, as pessoas deixam de mudar de posição. Mas não deixam de perceber que estavam erradas, isso continua a acontecer. Simplesmente guardam-no para si e continuam a defender em público aquilo em que já não acreditam em privado. Está cheio, o país, de gente a defender posições de que já desistiu faz muito tempo. Noto isto sobretudo nas empresas, que é onde passo os dias. Uma decisão tomada em Janeiro, com os dados de Janeiro, pode estar completamente errada em Outubro. Toda a gente à volta da mesa sabe. E, no entanto, é frequente que se continue a executar o plano, porque voltar atrás implicaria alguém dizer em voz alta que se enganou. Já vi gastar muito dinheiro a proteger o ego de alguém. Nunca vi ninguém ser despedido por teimosia, e já vi gente ser castigada por recuar a tempo. A ironia é que o único método que a humanidade inventou para chegar perto da verdade assenta precisamente em mudar de ideias. Chama-se ciência. Uma teoria vale enquanto resiste aos dados, e no dia em que não resiste substitui-se por outra. A isso não se chama fraqueza nem incoerência. Chama-se progresso, e é a razão pela qual já não tratamos doenças com sanguessugas.
Dito isto, não vou fingir que todas as mudanças de ideias nascem iguais, porque não nascem. Há quem mude por ter visto dados novos, por ter ouvido um argumento melhor, por ter vivido alguma coisa que não tinha vivido antes, por ter crescido e evoluído com opiniões mais sustentáveis. E há quem mude porque o vento virou, porque mudou de empregador, porque a posição antiga passou a sair cara. A primeira é das coisas mais respeitáveis que existem. A segunda é oportunismo. O problema do nosso tempo é que perdemos a paciência para distinguir as duas. E, na dúvida, castigamos ambas com igual entusiasmo. Nada disto é um convite para andarmos ao sabor do vento ou dos “interesses”. Há coisas que não se discutem consoante a conveniência, e quem muda de valores todas as semanas não é flexível, é apenas vazio mas mudar de opinião nem sempre é mau, nem sinal de vergonha, é até, nos dias que correm, uma boa demonstração de coragem, de aperfeiçoamento e de evolução pessoal.
Frases soltas:
A PJ deteve um cidadão estrangeiro por violação na via pública e o que é que o Tribunal de Loures fez? Libertou-o com apresentações semanais. Não é caso isolado, só no princípio deste mês foram conhecidos vários casos. E ainda dizem que está tudo igual…
A brilhante ideia do “Volta”, para além de ter conseguido “sacar” aos cidadãos mais uns euros por mês e de nos brindar com contentores revirados e lixo espalhado a céu aberto, teve o condão de abrir portas a um emprego novo. Não se admire por isso se se cruzar com pessoas na rua, com sacos enormes, uns às costas e outros a arrastar pelo passeio. Não, não são presentes e não é o Pai Natal, é o Estado a que isto chegou.