Poncha sim, mistela não

A poncha não é uma bebida qualquer. Não é um copo improvisado para turista distraído, nem um líquido doce para esconder álcool rasca. A poncha é Madeira em estado líquido, e hoje, goste-se ou não, é também economia a sério.

Os números oficiais não deixam margem para romantismos vazios. Segundo dados regionais, a produção de bebidas espirituosas na Madeira ultrapassa 1 milhão de litros por ano, gerando cerca de 8 milhões de euros em valor de primeira venda. Dentro deste universo, os licores representam uma fatia relevante, e a poncha corresponde a mais de metade desses licores. Não estamos a falar de folclore: estamos a falar de um setor económico que cresce, cria valor e sustenta empregos.

Mais: a produção de poncha engarrafada passou, em pouco mais de duas décadas, de valores residuais para centenas de milhares de litros anuais. Isto significa investimento, profissionalização e reputação construída com esforço. Reputação essa que pode ser destruída num copo mal feito.

É aqui que entra o problema, e não vale fingir que não existe. A chamada “poncha” vendida em certos sítios não passa de:

mel de açúcar ou xaropes industriais, sumo de limão de pacote, aguardentes manhosas e baratas, tudo misturado para “render mais”.

Isto não é tradição.

Isto não é esperteza.

Isto é aldrabice.

E a aldrabice sai cara. Não apenas ao consumidor, mas à Madeira. Cada copo de má qualidade: desvaloriza o produto regional, afasta quem procura autenticidade, mina a confiança do turista, e prejudica quem produz bem e cumpre regras.

Quando um setor gera milhões e depende da sua imagem, a qualidade deixa de ser um capricho. Passa a ser um dever. A poncha verdadeira, com aguardente de cana digna desse nome, mel de abelha e citrinos espremidos na hora, não precisa de truques. Sempre se fez assim. Sempre funcionou assim.

Quem aldraba a poncha não está a “ganhar a vida”. Está a matar a galinha dos ovos de ouro. Está a cuspir no prato da economia regional e na herança cultural que diz defender.

A poncha merece respeito.

A Madeira também.

E quem não consegue fazer uma poncha como deve ser, talvez devesse vender outra coisa.

António Rosa Santos