DNOTICIAS.PT
Crónicas

O fim da Festa

A vida de todos os dias não precisava de luzes a piscar ou neve de fingir. O dia de reis ainda era Festa, mas para celebrar bastava o bolo-rei, com a fava e o brinde

A dois de Janeiro, ainda se comiam os restos do almoço do primeiro do ano, e já a minha mãe estava à frente de uma grande operação para colocar tudo no lugar e fazer desaparecer o presépio, a árvore e o menino em cima da escadinha. As mulheres dos bordados iam começar a tocar à porta e nada era mais triste do que aqueles destroços da Festa. Os vasos com o trigo grande demais, a falta de frescura do alegra-campo e o pinheiro com os ramos descaídos.

O trigo, o pinheiro e o resto da verdura eram retirados dos vasos e das jarras e abandonados na fazenda. A dona Celina tinha a esperança que, com sorte, talvez nascesse ali tudo o que precisava para a Festa, quem sabe um pinheiro bonito e não aquelas partes tortas que o meu pai desencantava não sabia bem onde. O que nunca aconteceu e a memória que tenho desses natais na casa da Laranjal passa por uma ou várias discussões a propósito da árvore ou do presépio.

O meu pai era assim, tinha o dom de encontrar o estranho e o mais esquisito, do pinheiro à marca dos electrodomésticos que comprava numa loja de um conhecido. E isso também enfurecia a dona Celina, quando via aquelas máquinas com nomes que ninguém conhecia. Também me lembro de várias discussões aos sábados à hora do almoço, nos poucos em que o meu pai tinha folga e ia à cidade fazer compras sozinho. Quase sempre descia do autocarro com meio grão na asa e uma prenda para a minha mãe.

E discutiram por causa da televisão a preto e branco, por causa da máquina de lavar roupa e até por uma faca eléctrica, mas essa nunca cortou bem. A mais estranha dessas brigas foi a propósito da máquina de lavar, que não foi barata e deve ter sido das primeiras na vizinhança. O meu pai chegou feliz, com um brilho nos olhos por ter aquilo para dar e a minha mãe não percebeu logo quanto havia de amor naquele caixote que custou a subir pelas escadas acima. Ficou preocupada com o dinheiro, com a roupa mal lavada e não viu como aquele homem, rude e imperfeito, a queria aliviar das canseiras.

A minha mãe passou os anos seguintes a falar da história e do como tinha sido tonta. A esperança que lhe nascesse um pinheiro na fazenda, um que pudesse depois plantar num vaso e usar todos os natais era um sonho para uma Festa mais calma, sem sobressaltos. O que, na verdade, nunca aconteceu, foi sempre aquele caos, a pressa, tudo feito em cima da hora para logo seguir desmanchar e me obrigar a arrumar dentro de caixas de sapatos: a gambiarra, as figuras e os enfeites.

A vida de todos os dias não precisava de luzes a piscar ou neve de fingir. O dia de reis ainda era Festa, mas para celebrar bastava o bolo-rei, com a fava e o brinde. A minha mãe ajeitava o calendário da Panisal ou da Casa Santo António na cozinha, começava a contar os dias para o Carnaval, a ver os dias bons para podar as rosas e tratar do jardim. E com Janeiro vinha trabalho, às vezes chuva e frio, mas também um bolo para os anos dela e para os meus. O resto - os presentes - era mais incerto, mas aprendemos cedo apreciar os gestos, os abraços, o bolo, a gelatina de morango.