DNOTICIAS.PT
Mundo

Inundações em Moçambique pioram crise humanitária e já afectaram meio milhão de pessoas

None

As inundações em Moçambique desencadearam uma crise humanitária em rápida deterioração que já afetou mais de meio milhão de pessoas, alertaram hoje as Nações Unidas.

"O número de vítimas continua a aumentar à medida que as inundações prosseguem e que as barragens libertam água para evitar ruturas. As cheias causaram danos significativos e perturbaram profundamente a vida das populações", declarou Paola Emerson, chefe do Gabinete de Coordenação dos Assuntos Humanitários das Nações Unidas no país.

Chuvas intensas e tempestades têm atingido Moçambique e a vizinha África do Sul, provocando pelo menos 150 mortos desde outubro passado, segundo as autoridades. Só em Moçambique, foram contabilizados 112 mortos, três desaparecidos e 99 feridos.

"A situação permanece instável e perigosa", sublinhou Paola Emerson numa conferência de imprensa transmitida na sede da ONU em Genebra, Suíça, em que participou à distância, a partir da província moçambicana de Gaza, uma das mais atingidas pelas inundações.

Os danos nas estradas e noutras infraestruturas estão a dificultar o acesso das organizações humanitárias às zonas mais afetadas, acrescentou a responsável.

Cerca de 5.000 quilómetros de estradas foram danificados em nove províncias, incluindo a principal via que liga a capital, Maputo, ao resto do país, indicou.

Mais de 50.000 pessoas estão alojadas em mais de 50 centros provisórios de acolhimento. 

"Esta emergência causada pelas inundações soma-se aos deslocamentos massivos de populações devido ao conflito no norte de Moçambique [Cabo Delgado], que já esgotaram os recursos disponíveis", explicou Paola Emerson.

"Esta nova catástrofe lembra-nos de forma brutal a vulnerabilidade de Moçambique perante a convergência de múltiplos choques: conflitos, secas, ciclones nos últimos anos e, agora, graves inundações", acrescentou.

Com vários rios a transbordarem e a inundarem bairros inteiros, surgiu o risco de intrusão de crocodilos em zonas urbanas, nomeadamente em Xai Xai, explicou Paola Emerson.

"Os crocodilos existentes no rio Limpopo, em particular, são capazes de entrar em áreas urbanas ou densamente povoadas que se encontram agora submersas", afirmou.

Por seu lado, Guy Taylor, porta-voz do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), destacou que as chuvas excecionalmente intensas deste mês "desencadearam verdadeiramente uma situação de emergência que se agrava rapidamente em vastas regiões de Moçambique, sobretudo no sul".

"As inundações que estamos a observar não destroem apenas casas, escolas, centros de saúde e estradas, como também tornam a água imprópria para consumo" e fazem das "epidemias e da malnutrição uma ameaça mortal para as crianças".

"O facto de Moçambique estar a entrar na sua época anual de ciclones faz recair o risco de uma crise dupla", alertou o responsável, também a partir de Xai Xai.

Segundo Taylor, o número de crianças afetadas deverá "aumentar de forma acentuada" e as perturbações no abastecimento alimentar e nos serviços de saúde "correm o risco de empurrar as crianças mais vulneráveis para uma espiral devastadora".

"O que acontecer nos próximos dias determinará não só quantas pessoas sobreviverão a esta emergência, mas também quantas conseguirão recuperar, regressar à escola e reconstruir o seu futuro", concluiu.

De acordo com os dados do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), com números de 01 de outubro a 19 de janeiro, abrangendo já o atual período de cheias generalizadas no país, foram afetadas até ao momento 645.781 pessoas, equivalente a 122.863 famílias, com 11.233 casas parcialmente destruídas e 4.883 totalmente destruídas, agravando o balanço anterior.

Foram afetadas ainda 56 unidades sanitárias e 44 casas de culto, além de 306 escolas, sete pontes, 27 aquedutos, 2.515 quilómetros de estrada danificados e 155 postes de eletricidade tombados.

O Governo moçambicano estima que 40% da província de Gaza está submersa, e que vários distritos de Maputo estão inundados, além da total destruição de, pelo menos, 152 quilómetros de estradas nacionais.