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Crónicas

Rebaixas, saldos, descontos

Insistia em vasculhar os restos a ver se encontrava por lá um par de sapatos ou roupa que me pudesse servir

As rebaixas enchiam as montras das lojas umas semanas depois do Natal, mais ou menos quando limpavam a neve em spray e era preciso encontrar espaço para a mercadoria de Verão. Os preços em números grandes anunciavam oportunidades extraordinárias, mas o que via a luz do sol no fim de Janeiro poucas vezes era bonito. A minha mãe, as minhas tias e todas as pessoas sabiam, mas, mesmo assim, a dona Celina insistia em vasculhar os restos a ver se encontrava por lá um par de sapatos ou roupa que me pudesse servir.

Se me visse como eu era - grande e redonda - seria fácil perceber que naquela desordem não havia o que pudesse passar pelas minhas ancas, um bocado acima do padrão 36. Quase todas as minhas colegas, quase todas as raparigas que eu conhecia vestiam 36 e calçavam 36 e não lutavam contra o botão de cima das calças de ganga, nem tinham histórias nos provadores das lojas com a empregada a dizer, do outro lado a cortina, que não costumavam pedir números grandes ao fornecedor.

E a conversa continuava, a empregada, o empregado, o dono ou quem estivesse a atender a minha mãe, mais ou menos incrédulos por lhe ter saído uma filha que, aos 14 anos, media mais 10 centímetros e cabia à justa num 42, para não falar nos pés, dois números acima do padrão. “Saiu ao pai, que é assim”, explicava-se antes de nos arrastar para outra loja e para outra até serem horas de correr para a paragem, na Avenida do Mar, já de noite. Nos sacos havia roupa e sapatos que, quando eram da moda, tinham uma cor esquisita.

Lembro-me do alívio enquanto o autocarro subia pela encosta. A humilhação dos provadores tinha acabado e a minha mãe ia demorar três ou quatro meses a fazer compras, a levar-me de porta em porta, a fazer conversa só para pedir um desconto sobre o preço em desconto. As simpatias, como ela repetia aos lojistas. De que ia dentro de embrulhos e sacos, talvez se conseguisse salvar, mas até a minha mãe dizia, às vezes, que o que se vendia em rebaixas quase só servia para disfarces de Carnaval. Pior e mais cruel do que continuar na categoria dos invisíveis do intervalo dos Ilhéus era ser comentado por ser estranho.

A dona Celina fazia o que podia, mas a minha adolescência surpreendeu-a e parecia complicada aquela hierarquia social com base em modas, em roupas de má qualidade, que não aguentavam um dia de chuva e perdiam a cor depois de três ou quatro lavagens. A minha mãe defendia que se devia comprar pouco e bom para aguentar uns quantos reveses. E as vagas de rapazes e raparigas de entravam pelo autocarro adentro ao fim da tarde, com permanentes, livros debaixo do braço e roupa unissexo não encaixava no que pensara para mim.

Acho que projectava na adolescente atrapalhada dentro dos provadores das lojas uma jovem elegante, o que ela teria sido se lhe tivessem visto a inteligência, mas eu não era isso; era o que estava à vista: tímida, grande, desajeitada, alguém a quem era tão difícil encontrar umas calças de ganga como fazer amigos.