Crónicas

O bom, o mau e o vazio

A lealdade, a retidão e a coerência são o que separam a pequena da grande política, são o que distinguem os chefes dos líderes

Não há quem resista a um bom elogio. Ninguém vislumbra maldade nisso. O problema é quando o afago do ego parte do elogiado. Nessa arte do auto-elogio, os governantes portugueses encontraram um dom insólito e repetido sem pudor. Não há oportunidade que lhes escape. Portugal teve o melhor desempenho de sempre nas Olimpíadas de Tóquio. Lá veio o Secretário de Estado do Desporto acenar com um aumento de 16,5% (note-se a precisão) no financiamento da missão olímpica. O ano de 2020 registou o menor número de acidentes mortais nas estradas portuguesas. Eduardo Cabrita saiu da toca, fez de conta que 2020 foi um ano normal, e chamou a si os louros da segurança rodoviária. Mal sabia o ministro a velocidade com que a vida pode mudar. Nós continuamos sem saber a que velocidade ia o carro do ministro.

O bom: Rali Vinho Madeira 2021

Há poucas festas como esta. Não que seja melhor ou pior que qualquer outra. É, apenas, diferente. Há Vinho Madeira à noite, de dia, para os mais novos, para os mais velhos, no centro do Funchal e numa curva esquecida do Arco de São Jorge. Há festa do rali onde o rali não passa e muito antes do primeiro carro fazer-se ao asfalto. Festeja-se com quem se acabou de conhecer à beira da estrada e com quem conhecemos há vários anos. Por cá, o Vinho Madeira não é um simples rali. É história e tradição. É um testemunho que os pais entregam aos filhos. É a azáfama da subida à serra, a escolha cirúrgica da melhor curva para assentar, a fuga meticulosamente planeada ao encerramento das estradas. O Rali Vinho Madeira é o “bip” da Antena 3 e o desdobrável que se guarda religiosamente até ao fim da prova. É o momento inédito que juntou seis rádios madeirenses para cobrir a prova e que nos recorda que trabalhamos melhor em conjunto do que em separado. E que rali nos trouxe 2021. Mais do que entregar-nos os vencedores nos metros finais da última classificativa, esta edição do Vinho Madeira ofereceu-nos dois momentos que merecem recordação. A inspiradora perseverança de Alexandre Camacho e Pedro Calado, que nos lembra de como a vitória brinda os que dela não desistem. E a humildade desarmante de Miguel Nunes e João Paulo, a quem o piso roubou um lugar no pódio, mas nunca lhes beliscou a grandeza. É certo que não podem ser os quatro vencedores na estrada, mas ficarão todos na história do Rali Vinho Madeira. Não há maior vitória do que essa.

O mau: Partido Socialista e as impugnações

Foi notícia, esta semana, que o PS da Madeira constituiu uma equipa para passar a pente fino algumas das candidaturas adversárias às próximas eleições, na esperança de impugná-las. À primeira vista, a questão é de simples legalidade. Os partidos têm a obrigação de cumprir as exigências paritárias e o direito a fiscalizar-se mutuamente. Nada a apontar. O problema é que a política é feita dentro da legalidade, mas vive muito para além dela. É nessa dimensão, superior e anterior à lei, que a política se transcende. A lealdade, a retidão e a coerência são o que separam a pequena da grande política, são o que distinguem os chefes dos líderes. A atual liderança do PS sabe disso. Por isso argumenta, repetidamente, que é o partido com mais mulheres candidatas a presidente nas próximas eleições. Fá-lo, não porque a lei o exija, mas por convicção ou, na pior das hipóteses, porque entende ser um trunfo eleitoral. Especialmente por isso, a tentativa de impedir outras candidaturas por terem um número excessivo de mulheres atenta contra a decência política e dinamita qualquer réstia de coerência partidária. Mas a febre fiscalizadora socialista revela, também, o ponto a que o partido chegou. A tentativa de eliminação de adversários políticos através de um golpe de secretaria, feito contra os partidos mais pequenos e à custa de irregularidades em listas de suplentes, aproxima-se mais da política mesquinha do que da primavera da democracia que Paulo Cafofo nos prometeu. Tudo isto tem o som inconfundível de final de festa.

O vazio: A política e o Largo da Fonte

Como se explica um lugar? A pergunta terá tantas respostas como as ciências que o estudam. Para a política, o Largo da Fonte não se explica, tornou-se um não-lugar. Um vazio de responsabilidade. O primeiro passo em direção ao vácuo foi tornar o Largo num beco que só conhece uma saída: o aproveitamento político. Pedidos de informação? Aproveitamento político. Pedidos de documentação? Aproveitamento político. Pedidos de responsabilidade? Naturalmente, aproveitamento político. É óbvio que o tema é sensível, quase impossível, mas não pode ficar vedado à discussão. Não se trata, pois, da atribuição de culpa pelas sucessivas quedas de árvores – esse é o trabalho da justiça – mas da necessária assunção de responsabilidade pelo que aconteceu. Esse tem de ser o caminho da política. Pedir responsabilidade não é apontar o dedo, é exigir informação sobre o que se fez nos últimos 4 anos no Largo da Fonte e, acima de tudo, impedir que a tragédia se volte a abater sobre o Monte. Fugir a esse debate, é aceitar que quem governa a cidade fá-lo sozinho. É aceitar que se tenha garantido a segurança do Largo com base em relatórios que não são públicos. É aceitar que, de um dia para outro, essa garantia seja rasgada ao ritmo do corte indiscriminado de árvores. Por isso, a questão que inquieta sobre o Largo da Fonte não deveria ser o abate das árvores, mas sobre como essa solução passou de desnecessária a inevitável de um dia para outro. Essa pergunta continua sem resposta.