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Made in China

Quando o Império Romano lutava contra Cartago para se estabelecer como a “superpotência” do mediterrâneo, do outro lado do mundo, a China era unificada no ano 221 AC. Nos dois milénios que se seguiram, a Europa passou por agruras dignas de uma “montanha russa” mas China teve, em vez, a estabilidade e superação para ser a nação mais rica. Foi forjada pela etnia Han, mas muitas outras foram-se agregando. Tal fermentou uma mistura eclética que refinou uma cultura sublime. Foi cimentada pelo Confucionismo, filosofia ancestral que se difundiu por toda a Ásia e que procura uma simbiose entre o sereno respeito pela hierarquia e a procura de uma moral individual orientadora.

O seu declínio no século XIX deveu-se ao ignorar quer o Colonialismo, quer a Revolução Industrial dos europeus, as mesmas duas armas que o Império Britânico usou para a subjugar, impondo o comércio do ópio e a colonia de Hong-Kong. Na verdade, a estabilidade chinesa estagnou-a enquanto a Europa pós-renascentista vivia em constante competição entre nações. A República em 1911 e o Maoismo em 1949, foram os ingredientes finais para a ruína chinesa.

Em 1995 tive a oportunidade de assistir ao curso inicial de Cultura e Língua Chinesas da Universidade do Porto e logo desenvolvi uma empatia pelas diferentes nuances da sua arte, caligrafia, culinária, dança, música, literatura, medicina, arquitetura e comportamento, entre outras.

Estive na China duas vezes. As duas, separadas por duas décadas. Da primeira vez fiquei com a impressão de visitar um país que queria parecer o que não era, pobre, fechado, resignado. Da segunda, um país que pouco se importa com as aparências. A prioridade de todos era fazerem parte da engrenagem da maior economia e terem uma parcela do renascimento chinês.

Muitos dos erros na história são de percepção. Uma metáfora identifica os chineses, e sua a cultura, como côcos e, por analogia, os americanos, como pêssegos! Os primeiros têm casca dura, mas após a abrirmos, temos alimento e saciedade. Dos outros, o oposto. Talvez algo de verdadeiro, apesar das cascas poderem ser muito duras. E as características de um povo nem sempre se traduzirem nas suas elites governativas.

A China teve uma abordagem muito própria da Covid-19, o que lhe permitiu manter o seu crescimento. É o maior poluidor mas, ao mesmo tempo, traça um caminho futuro mais verde que muitos. Como na culinária, favorece as abordagens agridoces.

Surge um dilema. Como perspetivar este renascimento chinês? Para onde quer ir a China após 2 milénios de pujança, 2 séculos de decadência, seguidos de 2 décadas de fulgurante crescimento económico? Será que, à semelhança da URSS, a China ambiciona por uma dominação global? O modelo “Um país, dois sistemas” com abertura económica, mas sem liberdade política, é exportável?

A resposta é complexa.

A liderança teve inúmeras tonalidades. Mao Tsé-Tung, o dogmático que quis apimentar as doutrinas de Marx. Deng Xiaoping, o pragmático que quis abrir um pouco a janela e ver o exterior. Jiang Zemin, o sereno que abriu a porta, ocidentalizou a economia e incorporou Macau e Hong-Kong. Hu Jintao, o conciliador que percebeu que é preciso dar às pessoas aquilo que elas querem, mesmo que não seja tudo. Xi Jinping, quer uma China tão global quanto tão controlada pelas preces do partido, um sonho impossível?

É a China de Xi que acordou as consciências em muitas chancelarias. Xi postulou no centenário do Partido Comunista que “qualquer força estrangeira que tentasse intimidar a China teria suas cabeças cortadas e ensanguentadas contra a grande muralha de aço forjada com sangue e carne de 1,4 bilhão de chineses”. E que Taiwan seria tomado pela China. E que o partido reassumirá a centralidade na sociedade chinesa, não deixando lugar aos críticos, como descobriu o magnata chines Jack Ma, desaparecido por 3 meses. Uma belicosidade inabitual nas lideranças precedentes.

Trump fez dele naturalmente o inimigo da América. E quando se esperava um desanuviamento com Biden, surpreendam-se, a política de contenção da China é a prioridade da atual administração. E Biden parece ser ainda mais acutilante. Delineou com Boris Johnson uma aliança militar (AUKUS) à qual incorporou a Austrália, um país hesitante entre exportar para a China ou impedir o capital chinês nas empresas australianas. Isto, ao mesmo tempo que a Europa hesita.

Não é de estranhar que a China esteja rodeada de nações com vários graus de hostilidade. Da Coreia do Sul, pelo apoio de Pequim aos ditadores do norte da península. Ao Japão, que vê as suas ilhas cobiçadas pela China, o que originou o maior investimento nas forças armadas japonesas desde a Segunda Guerra. Às Filipinas, Malásia e Vietname, revoltados pela posse chinesa das posições nos mares ao sul da China, apesar da Lei internacional. Até a Indonésia, ao ver as suas águas serem invadidas pelos pesqueiros chineses, escoltados pela marinha chinesa. A China e a Índia envolveram-se em escaramuças fronteiriças nos Himalaias. Habilmente, a diplomacia americana reuniu estes países numa estratégia comum, o QUAD, com um ponto em comum, conter a China.

Taiwan, a província renegada da China, é simplesmente o maior fornecedor de semicondutores das economias ocidentais, e cuja autonomia a América prometeu defender, para tal alocando este ano, 70% dos seus recursos militares no Pacífico. Assim compreende-se a desvalorização que fez da Nato e do Afeganistão.

Creio que a China, mais do que ambicionar a dominação global, quer dominar as variáveis que permitiram continuar o seu crescimento. Quer o acesso às matérias primas, quer estabilidade política interna que, crê Xi, só o partido único lha pode dar, quer uma expansão da sua “área vital” no pacífico. Quer voltar a ser respeitada. A sua liderança só não sabe ainda como o fazer. Ou, se sabe como, corre o risco das outras nações a considerarem como não merecedora.

É caminho perigoso. Como ilustra um provérbio Chinês, “Se não queres que alguém saiba o que vais fazer, não o faças”.