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Alegado autor de ataque em Nice chegou a França na véspera

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Foto EPA

O alegado autor do atentado de Nice, que, na quinta-feira, matou três pessoas, provém de uma família modesta de Sfax, no Tunísia, estava na Europa há um mês e meio tendo chegado a França na véspera, segundo a família.

"Não é normal", repete o seu irmão Yassine, que luta para acreditar e entender como Brahim Issaoui, de apenas 21 anos, pode ter chegado ao ponto de realizar um ataque e deixar vítimas mortais isso.

"Desde que deixou a escola, trabalhou a consertar motocicletas", diz a sua mãe, em lágrimas, segurando uma foto do seu filho.

Nascido numa grande família de oito filhas e três filhos, Issaoui morava com os pais numa casa simples, numa rua esburacada de um bairro de classe trabalhadora, perto de uma área industrial dos arredores da cidade costeira de Sfax.

Conseguiu juntar algum dinheiro e abriu uma pequena loja de combustíveis, igual a muitas que podem ser encontradas em cidades da Tunísia, já que a maior parte da actividade económica acontece fora do sistema oficial.

Segundo a família, o jovem voltou-se para a religião nos últimos dois anos, tendo-se isolado de tudo e de todos.

"Ele reza há cerca de dois anos e meio. Ia do trabalho para casa, não saía e não se misturava com outras pessoas", referiu a mãe.

Antes desta "transformação", Issaoui "bebia álcool e usava drogas. Eu dizia-lhe 'temos tantas necessidades e tu estás a desperdiçar dinheiro?' e ele respondia 'se Deus quiser, indica-me o caminho certo'", contou.

O jovem já tinha tentado, em vão, fazer a perigosa travessia do Mediterrâneo rumo a Itália, mesmo sem avisar a família de que iria partir, afirmou um dos seus irmãos.

A família, incrédula, não entende como pode ter cometido um ataque menos de um mês e meio depois de chegar à Europa.

Issaoui é suspeito de ter matado, na quinta-feira, três pessoas com uma faca, numa igreja em Nice, sudeste de França, tendo sido depois gravemente ferido e hospitalizado, segundo a justiça francesa.

O jovem telefonou para a sua família na quarta-feira à noite, dizendo que acabara de chegar a França.

"Ele chegou à França quarta-feira por volta das 20 horas. Disse que ia para França porque o trabalho é melhor e em Itália há demasiadas pessoas", contou o irmão Yassine.

A Tunísia condenou veementemente o ataque e lançou uma investigação.

"Brahim Issaoui, nascido em 1999, não foi identificado como terrorista pelas autoridades tunisinas", disse o procurador-geral adjunto do tribunal de primeira instância de Tunes, Mohsen Dali, mas "deixou o país ilegalmente, em 14 de Setembro, e tem antecedentes criminais de violência e de drogas".

As saídas da Tunísia para a Itália aumentaram significativamente nos últimos meses, devido à pandemia, que fez disparar o desemprego num país que já luta para atender às expectativas sociais da sua população, e à crise política.

O número de tunisinos que emigram ilegalmente para Itália atingiu um recorde após a revolução de 2011, com mais de 20 mil chegadas ao país europeu, mas caiu drasticamente logo de seguida. Em 2017 começou a subir novamente.

Nos primeiros oito meses de 2020, mais de 8 mil tunisinos chegaram a Itália, de acordo com a ONU, e até meados de setembro, 8.581 pessoas foram interceptadas enquanto tentavam chegar à Europa por mar, de acordo com estatísticas do Ministério do Interior da Tunísia.

A Tunísia, que controla estritamente a prática do Islão enfrenta um aumento dos radicais desde 2011, tendo mesmo registado uma onda de ataques 'jihadistas' em 2015.

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